O que é a ameba comedora de cérebros?
A Naegleria fowleri, conhecida como 'ameba comedora de cérebros', é um organismo microscópico que causa uma infecção cerebral rara e frequentemente fatal. Tipicamente encontrada em lagos, fontes de águas quentes e piscinas abandonadas, a ameba entra no corpo pelas narinas quando as pessoas nadam ou mergulham. Uma vez dentro, ela ataca rapidamente o tecido cerebral, causando meningoencefalite amebiana primária (MAP).
Surto recorde na Índia
No ano passado, foram identificados mais de 200 casos de infecção por Naegleria fowleri na Índia, o maior surto já registrado em todo o mundo. Até então, menos de 500 casos haviam sido identificados globalmente entre 1962 e 2023. O surto gerou novos receios entre os pesquisadores, que afirmam que o organismo está sendo detectado em locais onde raramente era observado.
Expansão para novas regiões
Com as mudanças climáticas aquecendo lagos e tanques, a ameba começa a se expandir para regiões onde antes era muito frio para seu desenvolvimento. Nos últimos 20 anos, foi detectada uma proporção maior de casos em países do hemisfério norte, incluindo Itália e Bélgica. Novas infecções também foram encontradas nos últimos 15 anos no norte dos Estados Unidos, incluindo Minnesota. Em 2023, a Eslováquia registrou seu primeiro caso confirmado.
Casos também foram relacionados a ambientes fora dos lagos e rios tradicionais. Em Taiwan, um homem morreu em 2023 após exposição em um local fechado de surfe. Nos Estados Unidos, uma criança contraiu a infecção após utilizar um 'tapete de água' contaminado.
O drama de uma família
Steve Smelski, de 67 anos, natural da Flórida, perdeu seu único filho Jordan, de 11 anos, após uma viagem à Costa Rica em 2014. Jordan nadou em uma fonte natural de águas quentes perto do hotel e, dias depois, começou a sentir dores de cabeça, vômitos e alucinações. Sete dias e meio após nadar, ele morreu. 'Jordan nadou um dia, uma vez, e, agora, ele se foi', lamenta Steve.
Os médicos inicialmente suspeitaram de meningite, já que os sintomas são similares. Quando diagnosticaram a MAP, já era tarde: a infecção havia causado grave inchaço cerebral e danos irreversíveis. 'Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos, você deixa de ser quem é', relata o pai.
Por que as crianças são mais vulneráveis?
Especialistas indicam que crianças têm maior probabilidade de infecção. 'A idade em que mais pessoas sofrem da doença ao contraírem a infecção é aos 12 anos, pois as crianças adoram esguichar água quente', explica o professor Ian Wright, especialista em ciências da água da Universidade do Oeste de Sydney. Alguns cientistas acreditam que a ameba atravessa a barreira entre o nariz e o cérebro de jovens com mais facilidade.
Índice de mortalidade pode ser menor que o estimado
Historicamente, cerca de 97% das vítimas morrem. No entanto, o surto em Kerala, na Índia, desafiou esse conhecimento: mais da metade das 200 pessoas contaminadas sobreviveram, muito acima dos 3% históricos, segundo pesquisa publicada na revista Communications Medicine. O diagnóstico precoce, maior conhecimento dos médicos e protocolos de tratamento mais consistentes contribuíram para os melhores resultados.
Riscos além da natação
A ameba também pode entrar pelo uso de sistemas de irrigação nasal (frascos de bico longo) para combater sintomas de resfriados ou alergias. No ano passado, uma mulher de 71 anos morreu no Texas após usar água da torneira contaminada em um desses sistemas. A higienização nasal também ocorre em práticas religiosas, como no islamismo, e no ayurveda.
Como se proteger
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) recomendam usar água destilada, esterilizada ou fervida e resfriada para irrigação nasal. Ao nadar em água doce quente, segure o nariz ou use um clipe nasal para evitar que a água entre pelas narinas. 'Na dúvida, simplesmente não coloque sua cabeça dentro da água', aconselha Ian Wright.
O parasitologista molecular Anastasios Tsaousis, da Universidade de Kent, afirma: 'Acho que haverá mais casos no futuro. Nós iremos observá-los em todo o mundo.' No entanto, ele alerta que não há motivo para pânico, mas as pessoas devem estar atentas ao aumento do risco.



