Ser campeão é difícil, seja qual for o torneio. Copa do Mundo então, é para a eternidade. Ser bicampeão é mais complicado ainda, como foi a Itália campeã com Mussolini, em 1934, na própria Itália, e também em 1938, ainda sob a égide do Duce, mas com time melhor que os rivais.
Além da Itália de 1934-38, só o Brasil, com Pelé e Mané Garrincha, foi bi na sequência, em 1958 e 1962. E olha que os dois só estrearam na terceira partida, na Suécia, e, no bi, no Chile, Pelé só jogou um tempo e meio até se lesionar contra a Tchecoslováquia, e fazer número em campo para Mané fazer toda a diferença e números depois, com Amarildo substituindo muito bem o Rei.
Alternância de poder nas Copas
De lá para cá, mais ninguém conseguiu ser bicampeão. De 2002 para cá, é um campeão diferente a cada Copa. Nunca aconteceu tamanha alternância de poder em Copas. Não é só o Brasil que não tem sido mais o mesmo, outras seleções cresceram, como a França cada vez melhor, a Espanha que ganhou a primeira Copa em 2010 e pode ganhar a segunda agora, e novas seleções potentes como, por exemplo, Portugal. Além de velhas que voltaram a vencer depois de 36 anos, como a Argentina. Se falar das terras Alemanha e Itália, em fase estranha.
O fardo de ser campeão
O fardo de ser campeão, às vezes, é um peso pesado demais e pode ser agora em 2026 aos argentinos. A seleção pela primeira vez campeã em 1930 foi o Uruguai, bicampeão olímpico em 1924-28. Quase um tricampeão mundial para as condições da época. Não teve como mensurar sua força, porque, por razões políticas e institucionais, nem foi para a Copa de 1934. A Itália foi campeã também na marra, em 1934. Em 1938, cacifou e carimbou a própria faixa na França, com um time considerado melhor e mais preparado do que em 1934. Fora o Brasil de 1958-62, ninguém mais. E com algumas equipes que defendiam o título até melhores do que as vencedoras quatro anos antes.
Quando o Uruguai ganha em 1950, não havia como comparar a Itália campeã antes da Segunda Guerra. Até mesmo com a do ano anterior. Não tinha mais a base maravilhosa do Torino, morta na tragédia de Superga, em 1949. O Uruguai de 1954 talvez tenha sido melhor que o de 1950. Além da manutenção de craques como Schiaffino e Ghiggia, tinha Hohberg, fundamental no grande empate na semifinal por 2x2 contra a Hungria maravilhosa, que só faria diferença na prorrogação.
Possivelmente, o Uruguai de 1954 era melhor que o do Maracanazo. Se tivesse passado pela Hungria, a Jules Rimet talvez ficasse em definitivo com os uruguais ainda em 1954. A Alemanha Ocidental de 1958 não era melhor que a de 1954 - que só foi melhor do que a Hungria no campo pesado de Berna.
Brasil de 1962: superação sem Pelé
O Brasil de 1962 tinha 14 campeões de 1958, mas só teve um jogo e meio de Pelé, como dito. Para nossa felicidade teve Mané Garrincha absolutamente brilhante em um time vencedor e experiente, mas que não era melhor que o de 1958. Didi foi o craque na Suécia e não o melhor no Chile. Nilton Santos já tinha 37 anos de idade. Zagallo fez um papel ainda mais tático, mais recuado, para liberar Amarildo por um lado. Vavá manteve a sanha goleadora. Garrincha foi soberbo. O namorado de Elza Soares jogou por ela, pelo Brasil e pelo mundo. Djalma Santos pôde jogar desta vez a Copa inteira. Mauro era mais zagueiro que Bellini, Orlando de 1958 mais do que Zózimo em 1962, e Gilmar sempre uma segurança, assim como Zito. Mas dá para dizer que como funcionamento e como sofrimento, o Brasil de 1958 foi melhor do que o de 1962.
Na Inglaterra, em 1966, nem é preciso dizer o fiasco pela bagunça que foi a seleção brasileira. Também porque Vicente Feola aceitou convocar 46 atletas para formar quatro times que não formaram seleção alguma. Cortes absurdos como o de Servílio, manutenções absurdas como a do Paraná lesionado, não ajudaram. E a base envelhecida também não foi bem. Uma das piores campanhas de um campeão, o Brasil 11º colocado na Copa de 1966.
Inglaterra 1970: melhor que a campeã de 1966
Em 1970, a Inglaterra campeã tinha seis jogadores da base de 1966, num time muito melhor. Bobby Charlton estava ainda mais experiente, e o mesmo valia para Bobby Moore, e Banks: só rever a defesa da cabeçada de Pelé no segundo jogo em Guadalajara. A Inglaterra jogou mais do que o Brasil. Jogou mais na Copa de 1970 do que em 1966. Porém, o mal de Montezuma tirou o goleiro Banks da partida contra a Inglaterra. O reserva Bonetti entrou e foi muito mal, e a virada da Alemanha Ocidental de Gerd Müller se consumou.
Em 1974, o Brasil ainda tinha algumas estrelas de 70, mas já não tinha mais Pelé e tinha um Zagallo também diferente, mais retrancado. E numa Copa em que brilharam Alemanha, Holanda e Polônia, não daria mesmo para o Brasil. Em 1978, a Alemanha Ocidental campeã do mundo não fez uma grande Copa e acabou sendo eliminada no quadrangular semifinal sem jogar grandes partidas. A Itália jogou mais bola em 1978, aliás, muito mais do que em 1982, quando foi tricampeã.
Itália 1982: pragmatismo vs. futebol arte
Na Espanha, a Itália teve três empates medíocres, jogou bem contra a então campeã Argentina, venceu o Brasil na quinta partida, no Sarriá, quando explodiu Paolo Rossi, de quatro partidas medíocres para três gols contra o Brasil, dois gols contra a Polônia na semifinal, e o primeiro da decisão contra a Alemanha. A Itália merecia ganhar a Copa de 1978 e o Brasil, em 1982. O mundo teria sido melhor futebolisticamente. A praga pragmática teria sido aposentada ou nem entraria em campo naquelas circunstâncias.
A Argentina que foi eliminada pela Itália em 1982 tinha os mesmos nove titulares e mais o centroavante muito melhor, que era Ramón Díaz em relação a Luque, e não tinha Ortiz ou Valencia pela esquerda, e tinha simplesmente Maradona com 21 anos. Os hermanos não fizeram uma boa Copa, fisicamente não estavam bem, perderam na estreia para a Bélgica, e duas vezes para Itália e Brasil. A Itália em 1986 repetiu a história de que não dá para repetir sempre a história. Não fez uma grande Copa a partir do empate com a Bulgária.
Argentina 1990: campeã nos pênaltis
A Argentina campeã no México conseguiu se recuperar em 1990, mas com campanha medíocre. Perdeu o seu melhor goleiro, colocou um grande “ataga penales” como Goycochea e só. Ficou a Copa inteira jogando pelos pênaltis. Se classificou apenas como terceira colocada, e também com ajuda da arbitragem num pênalti absurdo não marcado a favor da União Soviética, e foi se levando nos pênaltis. Quando ganhou do Brasil, ganhou pela genialidade de Maradona com Caniggia e só, na melhor atuação do time de Sebastião Lazaroni. A Argentina foi outra campeã que foi longe, foi até a final, mas não jogou para isso.
Em 1994, a campeã Alemanha caiu antes da hora. Em 1998, o campeão de 1994 só caiu depois do piripaque que aconteceu com Ronaldo e no país sede, para uma França que começava a ser a potência que é neste século. E não daria lógica em 2002. Da Copa do Mundo de 1998 até a Copa de 2002, a França passou a jogar ainda melhor. Ganhou a Eurocopa e brilhava nos gramados do mundo, a ponto de em março de 2002 meter 5x0 na Escócia, em Saint-Denis, e eu dizer que a única boa notícia para a torcida brasileira é que dificilmente a França estaria jogando tanta bola na Copa. Só não imaginava que Zidane fosse se lesionar a seis dias do Mundial e que na Copa, a França, além da derrota para o Senegal por 1x0, nenhum gol faria e seria eliminada na primeira fase.
França 2002: a pior campanha de um campeão
Uma das maiores surpresas e a pior campanha de um campeão defendendo o título. Em 2006, se esperava até mais do Brasil, com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Adriano e Ronaldo, e foi um fiasco também pela preparação circense em Veggia. Mas, mesmo não sendo legal, o Brasil só parou diante da genialidade de Zidane em Frankfurt. França, que acabou perdendo nos pênaltis para a Itália, que começaria essa sina de equipes que ganham a Copa e se perdem na seguinte. A Azzurra não passou da primeira fase em 2010, como não passaria em 2014 e nem mais para as Copas iria em 2018, 2022 e 2026. A Espanha, medíocre campeã, mas merecida vencedora em 2010, numa das piores Copas do Mundo, também faria feio em 2014, sendo goleada pela Holanda em Salvador, não passando da primeira fase, como também não iria muito longe nos mata-matas em 2018 e 2022. A Alemanha, que voltara a ser gigante com uma grande campanha e merecida a conquista do tetra em 2014, em 2018 não passou da primeira fase, 2022 a mesma história, e, em 2026, caiu nos pênaltis para o Paraguai, na fase de 16 avos de final. É muito pouco para tamanho investimento e planejamento.
E a França em 2018, essa, sim, fez lindo. Talvez esteja jogando até mais ou quase tanto como jogou em 2018, em 2022, mas acabou parando nos pênaltis para Dibu Martínez, com aquela defesa fantástica ainda na prorrogação diante de Kolo Muani, e para o genial Messi. Mas com Mbappé e ainda Griezmann, a França foi excepcional e merecia melhor sorte.
Argentina 2026: a chance do bi?
Como agora, em 2026, vamos ver se a Argentina se mantém. A Argentina agora me parece melhor, mais sólida do que em 2022. Sofreu demais desde o primeiro jogo, quando levou a virada da Arábia Saudita, foi a campeã coberta de méritos, mas tinha defeitos. Desta vez, uma equipe mais compacta e que, na dúvida, joga a bola para o Messi, e o Pelé desse planeta resolve. Dificilmente será campeã, porque, repito, desde 1962 não temos um bicampeão. Mas a Argentina, depois de mandar para as favas o tabu de 36 anos sem título, entrou com sangue mais doce, ainda com o dulcíssimo Messi para fazer toda a diferença. Se a história vai se repetir como festa, como não acontece desde 1962, saberemos em breve. Em Messi.



