Milei retoma ataques a Lula e eleva tensão entre Argentina e Brasil
Milei ataca Lula e eleva tensão entre Brasil e Argentina

O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um discurso realizado neste domingo (2), elevando o tom de uma crise diplomática que se arrasta desde que o ultraliberal assumiu o cargo, em dezembro de 2023. Na fala, o líder argentino repetiu e endureceu críticas anteriores ao petista, mas sem apresentar novidades em termos de política externa.

Crise já teve outros capítulos

Esta não é a primeira vez que Milei se refere a Lula com hostilidade. Durante a campanha eleitoral, chegou a chamá-lo de "comunista" e "corrupto". Depois da vitória, amenizou o discurso, mas nunca houve uma aproximação real. Em 2024, o argentino recusou o convite para o Brasil integrar os Brics, bloco liderado por grandes economias emergentes, em uma decisão que foi interpretada como um gesto hostil a Lula.

Mais recentemente, as divergências em torno da negociação entre o Mercosul e a União Europeia voltaram a colocar os dois governos em lados opostos. O Brasil pressiona por um acordo; a Argentina, sob Milei, tenta se alinhar mais aos Estados Unidos e defende uma agenda de abertura comercial distinta.

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Impacto econômico e comercial

As tensões têm custo concreto. O comércio bilateral entre Brasil e Argentina movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano, segundo dados oficiais. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Qualquer ruído político tende a afetar a confiança dos empresários e os investimentos de pequenas e médias empresas que dependem da exportação para o vizinho.

Além disso, a Argentina vive uma crise econômica severa, com inflação acumulada em torno de 100% ao ano e uma taxa de pobreza que supera 50%. Nesse cenário, o Brasil é visto como um sócio essencial para a estabilização do país, o que torna ainda mais surpreendente a escalada retórica de Milei.

Reação brasileira e expectativas

No Brasil, a resposta tem sido cautelosa. O Itamaraty acompanha os discursos do presidente argentino e já manifestou, por meio de canais diplomáticos, o "estranhamento" com as declarações. Lula evita responder diretamente, uma estratégia avaliada como acertada por diplomatas para não dar palco ao adversário.

Na Argentina, as declarações de Milei são vistas com entusiasmo por seus aliados da direita, mas geram apreensão no setor empresarial. Representantes da indústria argentina já sinalizaram que prejuízos comerciais com o Brasil podem agravar a recessão.

O episódio ocorre às vésperas de uma nova rodada de reuniões do Mercosul, que deve ser palco de novos atritos. Diplomatas não descartam que Milei use o evento para novas provocações, mas admitem que também há espaço para um gesto de distensão, caso os interesses econômicos prevaleçam.

Repercussão internacional

A troca de farpas entre os líderes ganhou destaque na imprensa internacional, que vê na relação entre Brasil e Argentina um termômetro da política sul-americana. O governo dos Estados Unidos, por sua vez, observa com atenção, mas evita tomar partido. Enquanto isso, a China, principal parceira comercial da Argentina, tem reforçado laços com o país, o que aumenta a complexidade do tabuleiro regional.

Analistas apontam que Milei pode estar mirando a disputa eleitoral de 2027 no Brasil, na qual reaproximação com setores da direita local poderia enfraquecer Lula. No entanto, a maioria dos especialistas considera improvável que a retórica agressiva se converta em isolamento diplomático duradouro, dado o peso econômico dos dois países.

Até lá, a relação entre os dois países segue em compasso de espera, com a expectativa de que o pragmatismo econômico evite uma ruptura maior.

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