Keiko Fujimori lidera boca de urna no Peru com 50,7% dos votos válidos
Keiko Fujimori lidera boca de urna no Peru com 50,7%

Keiko Fujimori, candidata de direita, deve ser eleita a nova presidente do Peru, segundo pesquisa de boca de urna divulgada neste domingo (7), logo após o fechamento das urnas no país. A pesquisa do instituto Ipsos aponta Keiko com 50,7% dos votos válidos, enquanto seu concorrente, Roberto Sánchez, candidato de esquerda, tem 49,3% dos votos.

Disputa acirrada e fragmentação política

Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi confirmada em primeiro lugar logo no início, mas a definição de seu adversário no segundo turno durou semanas e precisou ser apurada voto a voto. Sánchez e o candidato de extrema direita Roberto López Aliaga estavam praticamente empatados até a contagem final. O Observatório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), equivalente ao TSE peruano, só confirmou Sánchez no segundo turno quando a apuração chegou a 99,94% das atas eleitorais revisadas. Com isso, o tempo de campanha foi um dos menores que o país já teve.

A demora na contagem e as contestações eleitorais, somadas a um número recorde de 35 candidatos à presidência, mostram a extrema fragmentação política e a crise de confiança na democracia que vive o Peru. Lucas Berti, cientista político e pesquisador sobre o Peru no Observatório Político Sul-Americano, afirma que o que aconteceu nessas eleições não vem de um 'vácuo'. 'É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar', afirmou.

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Nove presidentes em dez anos

O Peru contabilizou nove presidentes em dez anos. Os mandatos presidenciais no Peru são de cinco anos, o que significa que, em uma estabilidade democrática, o país teria apenas dois presidentes no mesmo período. No entanto, a realidade foi outra, e alguns líderes não duraram nem cinco dias no cargo. 'Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu', diz Berti.

Além disso, vale destacar o artigo 113 da Constituição peruana, que afirma que um presidente pode ser derrubado por 'incapacidade moral ou física permanente' — e quem avalia esse diagnóstico são os parlamentares. Assim, se o Congresso não gosta de uma lei que o presidente tenta passar, pode acionar esse artigo, votar e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente eleito pela maioria da população. Para Berti, essa facilidade demonstra a fragilidade institucional em jogo no Peru.

O papel da coalizão fujimorista

De acordo com Berti, nos últimos anos, a coalizão fujimorista, de maioria absoluta no Congresso, vem articulando poderes no Legislativo, nos tribunais e no sistema judiciário. Desde 2008, Keiko lidera essa corrente ao fundar o partido Fuerza Popular e tenta chegar ao Poder Executivo. No entanto, ela perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno por margens muito apertadas. Agora, em 2026, passa ao segundo turno com uma margem maior de votos. 'Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para Sánchez. Isso indica que a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto', diz Berti.

Democracia em crise: desconfiança crônica

A queda de braço entre Executivo e Legislativo resultou em uma profunda crise política e afetou a forma como a população enxerga a democracia. 'A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos dez anos. A desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que resultaria na queda da ex-presidente Dina Boluarte em 2025', explica Berti.

Dados recentes do Latinobarómetro, que mede o nível de democracia na América Latina, apontam que o Peru enfrenta um dos níveis mais baixos de confiança nas instituições. Cerca de 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso, e apenas 10% se dizem satisfeitos com a democracia. A pesquisa também notou outro sentimento perigoso: a indiferença sobre a política ou o tipo de regime de governo. A fragmentação política extrema, com 35 candidatos no primeiro turno, demonstra isso.

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'Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru, e são partidos chamados de 'pouco institucionalizados', que não têm raízes efetivas na sociedade. São legendas que surgem e somem, e não há fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão com facilidade', explica Berti. Esse cenário reforça no eleitor a lógica de que os candidatos chegam às eleições sem base sólida ou partido conhecido, gerando desconfiança e descrédito.

Não é difícil imaginar que o próximo presidente, caso seja Sánchez, poderá enfrentar o mesmo padrão que derrubou os antecessores, a menos que consiga alterar a correlação de forças no Parlamento. Já se Keiko for eleita, segundo Berti, talvez exista uma facilidade maior de governabilidade, já que seu partido tem maioria no Congresso. Ainda assim, terá que lidar com a crise política no país. Diante disso, o maior desafio será convencer o eleitor a sair de casa para votar e acreditar novamente na política peruana.