Geopolítica redefine comércio global e Brasil precisa se integrar a cadeias de valor
Geopolítica redefine comércio global; Brasil precisa se integrar

A geopolítica voltou a ocupar posição de destaque no tabuleiro de decisões econômicas, obrigando governos e empresas a reavaliar riscos inerentes às suas cadeias de suprimento. É importante ressaltar, contudo, que esse movimento não se traduz numa inflexão do comércio internacional. O que mudou foram os parâmetros que o orientam, com elementos de segurança econômica e resiliência logística se somando, com maior ênfase, aos já tradicionais critérios de custo e eficiência.

Defesa e economia real estão interligadas

Embora essa reorientação assuma contornos particularmente relevantes num setor estratégico como o da defesa e segurança, é um equívoco tratá-lo de forma apartada da economia real, dado o seu elevado grau de integração com ecossistemas civis de inovação e cadeias produtivas transnacionais. A razão disso é pragmática: o avanço tecnológico é rápido, os custos são altos e a base de fornecedores de ponta é global. Dividir etapas, incorporar tecnologias duais e ampliar a escala produtiva tornam-se, assim, parte indissociável do modelo de negócios.

Exemplos de integração produtiva global

É o caso do programa F-35, liderado pelos Estados Unidos, mas permeando uma imbricada cadeia produtiva distribuída entre países parceiros como o Reino Unido, Itália, Holanda, Canadá, Dinamarca, Noruega e Austrália. Também é o caso de avançados programas de desenvolvimento de caças de sexta geração gestados na Europa, com consórcios internacionais buscando diluir custos, acelerar inovação e promover interoperabilidade.

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A própria indústria aeronáutica brasileira replica essa integração produtiva, importando cerca de 60% dos componentes utilizados em suas exportações – um fator que, aliado à sua extraordinária capacidade de engenharia local, contribui diretamente para sustentar sua competitividade junto a exigentes mercados internacionais.

Dependências e oportunidades estratégicas

Essa integração se manifesta mesmo em segmentos sujeitos a rigorosos controles de exportação. Em 2022, o relatório Silicon Lifeline: Western electronics at the heart of Russia’s war machine, publicado pelo Royal United Services Institute (Rusi), renomado think tank britânico especializado em defesa e segurança, denunciou, com vasta evidência de campo, a elevada concentração de componentes eletrônicos ocidentais em sistemas militares russos empregados na Ucrânia – expressando a notável capacidade russa de se evadir das sanções aplicadas. Já os Estados Unidos, país detentor da mais avançada base industrial de defesa do planeta, se encontram profundamente dependentes no que tange ao fornecimento de terras raras – convertendo-se em uma valiosa oportunidade para o Brasil, detentor da segunda maior reserva conhecida desses minerais tão fundamentais à defesa, ciência e economia do século 21.

Integração como caminho para competitividade

Integrar-se às cadeias globais de valor, mesmo no setor de defesa e segurança, é, portanto, uma necessidade. Isolamento raramente gera competitividade, associando-se a custos maiores, atrasos tecnológicos e dependências mal administradas. Maior integração, em contrapartida, tende a elevar a produtividade e acelerar a aprendizagem, ampliando as possibilidades de acesso a insumos de mais alto padrão, especialmente em setores intensivos.

É nesse contexto que acordos comerciais – como o do Mercosul e da União Europeia – se consolidam como instrumentos vitais. Mais do que avançar em liberalizações tarifárias, contribuem para a harmonização de regras, a redução de incertezas regulatórias, a criação de pontes com novos ecossistemas tecnológicos e a indução de acordos de coprodução e estruturação de joint ventures.

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Brasil tem janela de oportunidades

Ademais, com o bloco europeu visando a recomposição de suas capacidades militares e a diversificação de fornecedores e parcerias, o Brasil tem diante de si uma rara janela de oportunidades. Vale destacar que o País já possui produtos e competências internacionalmente reconhecidos, a exemplo das aeronaves Embraer KC-390 – já selecionadas por diversos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – e do A-29 Super Tucano – uma alternativa de baixo custo e alta eficácia frente ao uso massivo de drones em conflitos modernos. Outros sucessos incluem a atuação global de empresas com comprovadas competências industriais e tecnológicas de uso dual, como a Akaer e WEG, além da forte presença internacional de empresas do segmento de armas leves, a exemplo da Taurus e da CBC.

Estratégia: inteligência econômica e integração

Assim, diante do atual quadro de instabilidade geopolítica, a resposta estratégica mais adequada não está em ceder a impulsos isolacionistas, mas em construir instrumentos de inteligência econômica que permitam mapear dependências críticas, monitorar cadeias essenciais, antecipar choques externos e mitigar distorções – seja por meio de produção doméstica, diversificação de fornecedores ou formação de estoques, a depender de cada caso.

Se o Brasil quiser que sua indústria de defesa e segurança seja um vetor de desenvolvimento, precisará internalizar que a soberania do século 21 se mede, também, pela capacidade de se posicionar nas cadeias globais de valor, conciliando abertura, segurança e resiliência ao mesmo tempo em que transforma integração comercial em ganhos de produtividade, inovação e competitividade.