Em meio às crescentes críticas do governo de Donald Trump ao sistema de pagamentos brasileiro Pix, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu na quarta-feira (6 de março) que o Brasil poderia "ir para a mesa de negociação" com os Estados Unidos, mencionando o Zelle como uma contrapartida. Em entrevista ao canal TMC News, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou que "os EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle". "Então dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos", completou o ex-parlamentar, que vive nos Estados Unidos há mais de um ano realizando articulações políticas para beneficiar o campo bolsonarista.
Contexto da declaração
A fala de Eduardo ocorre em um momento de forte pressão americana sobre o Pix, que foi um dos alvos de um documento no qual o governo Trump propõe uma nova taxação de 25% sobre produtos brasileiros. O documento alega que "o Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix". A investigação comercial contra o Brasil foi iniciada em julho do ano passado. O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer um papel duplo no Pix — como regulador e proprietário/operador do sistema —, criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas". As críticas também mencionam a exigência de que instituições financeiras com mais de 500 mil contas adotem o Pix e que o sistema seja exibido na tela principal dos aplicativos bancários no Brasil.
Repercussão política
Em pré-campanha para a reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem utilizado o argumento de que os Estados Unidos e a família Bolsonaro seriam contra o Pix. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, por sua vez, destaca que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), embora o projeto tenha sido iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018. As declarações de Eduardo Bolsonaro geraram forte reação no campo governista. Deputados do PT acusaram os filhos do ex-presidente de agirem contra os interesses nacionais. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) os chamou de "entreguistas": "Eduardo Bolsonaro confessa que quer entregar nosso Pix público e gratuito, operado pelo nosso Banco Central, aos americanos. Nós não vamos permitir". Já a ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirmou que Eduardo "quer trocar o nosso Pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação para retirar a taxação americana, que eles ajudaram a articular".
O que é o Zelle e como se compara ao Pix
Diferentemente do Pix — um sistema de pagamentos público, criado e operado pelo Banco Central brasileiro —, o Zelle é um sistema privado de pagamentos e transferências, operado por bancos americanos. O serviço é gerido desde 2017 pela Early Warning Services, uma empresa que é copropriedade de sete dos maiores bancos dos Estados Unidos: Bank of America, Capital One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo. Segundo a empresa, o Zelle está disponível em mais de 2,4 mil aplicativos bancários no país, cabendo a cada banco a decisão de adotá-lo ou não. No Brasil, a participação no Pix é obrigatória para todas as instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central com mais de 500 mil contas ativas.
Números e alcance
O Zelle anunciou que alcançou 151 milhões de usuários cadastrados em 2024, entre consumidores e pequenos negócios, movimentando mais de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões) em transferências naquele ano. Já o Pix é utilizado por mais de 170 milhões de pessoas físicas no Brasil, o que representa 80% da população do país, e movimentou R$ 35,4 trilhões em transferências apenas em 2025. A CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, classifica o Zelle como uma "resposta da indústria bancária ao crescente sucesso de serviços de pagamento entre pessoas, como PayPal", uma plataforma global de pagamentos online separada dos bancos.
Funcionamento e taxas
Uma limitação de serviços como PayPal, Venmo e Cash App é que os usuários precisam utilizar o mesmo serviço para transferir dinheiro. Com o Zelle, qualquer pessoa com uma conta bancária em uma instituição participante pode enviar recursos. Assim como o Pix, o Zelle permite transferências rápidas usando apenas o endereço de e-mail ou número de telefone do destinatário. No Brasil, os clientes podem usar também o CPF ou uma "chave aleatória". De acordo com a Early Warning Services, o dinheiro é depositado diretamente na conta bancária "em poucos minutos". O Pix, por sua vez, é instantâneo, realizando pagamentos em segundos, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive em fins de semana e feriados. O Bank of America ressalta que, "em algumas situações, a instituição financeira do destinatário pode causar um atraso no processamento da transferência" via Zelle. Quanto às tarifas, a Early Warning Services afirma que "normalmente não há tarifas para consumidores enviarem ou receberem dinheiro por meio do Zelle", mas isso não é uma regra fixa, podendo haver cobranças por parte dos bancos. No Brasil, o Pix é gratuito para pessoas físicas, microempreendedores individuais (MEIs) e empresários individuais, enquanto pessoas jurídicas pagam taxas que variam de 0,89% a 1,45% por transação, dependendo do banco e do volume de recebimentos.
Limites e segurança
Os limites de envio e recebimento pelo Zelle são definidos por cada banco ou cooperativa de crédito participante. No Pix, os limites para pessoas físicas são estabelecidos pelas instituições financeiras com base no perfil de risco e comportamento do usuário. Em um artigo publicado em 2025, o economista americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel, elogiou o Pix, classificando-o como "uma espécie de versão pública do Zelle". "Mas o Pix é muito mais fácil de usar. E, embora o Zelle seja grande, o Pix se tornou simplesmente enorme, sendo usado por 93% dos adultos brasileiros. Parece estar rapidamente substituindo dinheiro em espécie e cartões", escreveu Krugman.
Defesa do Pix pela Febraban
Após a citação do Pix no relatório produzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) nesta semana, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) saiu em defesa do meio de pagamento. A entidade afirmou que a conclusão da investigação dos EUA decorre de "informações incompletas" sobre os objetivos e o funcionamento do sistema financeiro brasileiro. "O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e, consequentemente, da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras", declarou a Febraban. A entidade acrescentou que "não há qualquer restrição à entrada de novos participantes, de qualquer porte ou segmento da indústria financeira, desde que operem no mercado nacional".
Por que o Pix incomoda o governo Trump?
A menção ao Pix no relatório do USTR não foi o primeiro ataque dos EUA ao sistema de pagamentos. Em 31 de março, outro relatório do USTR já listava o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas, incluindo o Brasil. Na ocasião, o governo brasileiro reagiu, e o presidente Lula afirmou que "o Pix é do Brasil". No relatório de março do ano passado, o sistema de pagamentos não foi mencionado diretamente, ao contrário do que ocorreu neste ano. Uma fonte próxima às negociações entre Brasil e EUA, ouvida pela BBC News Brasil, sugere que o endurecimento do tom pode estar relacionado ao desfecho de uma reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC), na qual o Brasil bloqueou uma proposta dos EUA e de outros países para estender a moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui serviços digitais como streaming, softwares e jogos.
Além disso, a grande derrota do tarifaço de Trump no judiciário americano em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autorizava o governo a instituir as tarifas, pode ter influenciado a estratégia. Em um artigo de março, analistas do centro de pesquisas Brookings Institute apontaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na investigação contra o Brasil, poderia ser uma opção para taxar parceiros comerciais.
Dimensão geopolítica
Do ponto de vista do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama a atenção para a expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas especialmente para o fenômeno mais amplo de transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira internacional. "O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", destaca Duran. A professora observa que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de empresas estrangeiras". "Em todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados nacionais", completa.
Da economia à política
Diante desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de pagamentos de outros países também está ligada a uma questão de soberania. O que está em jogo, segundo ela, não é apenas a concorrência entre empresas, "mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas". "Nas minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram", afirma Duran. "A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal." Com informações de Vitor Tavares, Thais Carrança, Daniel Gallas e Camilla Veras Motta, da BBC News Brasil em São Paulo e Londres.



