Um estudo antropológico do King's College de Londres revela que os feminicídios relacionados ao sistema de dotes na Índia estão em ascensão, apesar da prática ser proibida desde 1961. A pesquisa aponta que a incapacidade das famílias das noivas de cumprir exigências financeiras frequentemente resulta em violência e morte.
Dote como transação de mercado
Segundo o estudo, o dote assumiu nova configuração, funcionando como valor exigido no mercado matrimonial. Quanto maior o status social do noivo, maiores as demandas: dinheiro, joias, carros de luxo. Se a família da noiva não atende, a esposa pode sofrer assédio, violência física e até ser queimada viva.
No início dos anos 1990, a Índia registrava cerca de 2 mil mortes anuais relacionadas ao dote. Hoje, o número ultrapassa 6.500 mortes por ano, com 15 a 16 mulheres mortas diariamente. A imprensa indiana noticia esses casos quase diariamente, de forma banal, refletindo uma sociedade que trata o casamento como transação financeira.
Lógica extrativista e indiferença
O estudo descreve uma "lógica extrativista": se a noiva não atende às exigências, é vista como "mau negócio" a ser eliminado. Isso configura um feminicídio estrutural, invisibilizado por uma "organização da indiferença". Nos anos 1980, queimaduras vivas geravam escândalos; hoje, o assédio contínuo leva muitas esposas ao suicídio.
As consequências incluem abortos seletivos de bebês meninas para evitar futuros dotes. A proporção nacional de nascimentos caiu para 927 meninas por mil meninos; no Punjab, são apenas 754 meninas por mil meninos.
Revolução cultural necessária
Movimentos feministas consideram as leis ineficazes e defendem uma revolução cultural, boicotando o sistema de dotes. No entanto, essas vozes encontram cada vez menos eco diante das "infraestruturas da indiferença", segundo o estudo.



