O anúncio de que o governo dos Estados Unidos pode retomar a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros, ocorrido nos últimos dois dias, desencadeou uma intensa disputa política entre os dois principais pré-candidatos à Presidência da República: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Lula acusa Flávio de ter solicitado a imposição de tarifas ao Brasil durante uma visita a Donald Trump, nos Estados Unidos, na semana passada. Por outro lado, Flávio Bolsonaro acusa o governo brasileiro de não ter conseguido negociar de forma satisfatória com os Estados Unidos.
Embora a medida, caso implementada, possa afetar pelo menos 20% de todos os produtos exportados aos Estados Unidos, parte dos embates políticos tem se concentrado em torno de um ponto específico: o Pix. Lula vem utilizando o argumento de que os Estados Unidos seriam contra o Pix, mecanismo criado pelo Banco Central que permite transações financeiras instantâneas e gratuitas. Flávio, por sua vez, usa como argumento o fato de que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro.
O documento divulgado pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) na segunda-feira, como resultado de uma investigação comercial, fez diversas menções ao Pix, classificando o mecanismo como um "campeão nacional" e afirmando que ele representaria uma ameaça à atuação de empresas norte-americanas que atuam no segmento de meios de pagamento.
Especialista minimiza ameaças ao Pix
Em meio ao debate político, o diplomata brasileiro, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC) e consultor Roberto Azevêdo, minimiza as supostas ameaças sofridas pelo Pix. "O Pix em si não sofre nenhuma ameaça", diz Azevêdo em entrevista à BBC News Brasil. Segundo ele, o único questionamento significativo dos norte-americanos sobre o Pix está no fato de ele ser operado pelo Banco Central, que é, ao mesmo tempo, o órgão regulador das empresas de meios de pagamento que concorrem com o Pix.
"No Brasil, está se fazendo muito alarde em torno do Pix, mas não acho que o Pix vai sofrer nenhuma alteração. Eles (os EUA) não vão pedir nada disso. O que eles gostariam é que o Pix fosse administrado de forma diferente e o pedido pode ser ou não atendido pelo Brasil", completa Azevêdo.
Trajetória de Roberto Azevêdo
Com mais de 30 anos de diplomacia, Azevêdo é apontado por colegas brasileiros e estrangeiros como um especialista em negociações internacionais. No Ministério das Relações Exteriores (MRE), ele comandou o Departamento Econômico da pasta, entre 2005 e 2006. Depois, foi indicado como embaixador do Brasil na OMC. Em 2013, assumiu a presidência do órgão, por indicação do governo brasileiro. Em 2017, foi reeleito para o cargo, mas renunciou em 2020 para assumir a vice-presidência da PepsiCo. Em 2023, ele deixou o cargo e hoje atua como consultor e membro de conselhos em órgãos como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Negociações e impactos econômicos
Na entrevista, Azevêdo diz que o Brasil deve continuar tentando negociar para reduzir os impactos das tarifas que o governo dos EUA pode querer impor sobre o Brasil. Em tom cauteloso, Azevêdo acredita que os governos de Brasil e dos Estados Unidos não teriam se empenhado efetivamente nas negociações sobre o assunto, mas evitou explicar o que teria levado o governo brasileiro a fazê-lo. Ele diz, no entanto, que é preciso que o clima de embate eleitoral não afete o processo negocial.
"O importante é ter a cabeça fria, negociar e procurar reduzir o impacto econômico, comercial e social no Brasil da melhor maneira possível e não criar animosidade e um clima de polêmica ou de guerra com fins estritamente eleitorais", diz.
Impacto imediato das tarifas
Perguntado sobre o impacto imediato do anúncio, Azevêdo explica: "Voltamos à situação que vivíamos antes de a Suprema Corte norte-americana derrubar as tarifas em janeiro deste ano. O que está acontecendo agora é que aquelas tarifas estão sendo reintroduzidas em um patamar mais baixo. Até janeiro, as tarifas estavam num patamar de 40%. Agora, estão sendo reintroduzidas a 25%. Antes, era exorbitante, mas ainda é muito alto."
Ele destaca que as tarifas são prejudiciais não apenas por fechar o mercado americano, mas por impedir a integração de determinados segmentos da cadeia produtiva brasileira nas cadeias de valor globais que passam pelos Estados Unidos. "Os Estados Unidos são um mercado no qual o Brasil consegue vender produtos de alto valor agregado, ao contrário das nossas exportações para a China, para onde nós vendemos muitas commodities. Nos Estados Unidos, vendemos máquinas, equipamentos, produtos acabados e semimanufaturados. É um mercado muito especial e esse mercado vai se fechando progressivamente."
Negociações incipientes
Sobre as negociações em curso, Azevêdo afirma que "essa negociação vinha acontecendo de maneira muito incipiente. Todas as informações que eu tenho são de que houve um ou dois contatos muito superficiais. Foram contatos em alto nível, entre o Jamiesson Greer (secretário de Comércio dos EUA) e nosso ministro da Indústria e Comércio (Márcio Elias Rosa). Mas é muito difícil chegar a resultados que alterem o contexto da decisão que foi proposta com negociações nesse estágio de tratativa. Precisaríamos ter algo mais avançado, uma coisa mais palpável e isso não estava presente. A proposta de adoção de medidas da forma que foi formulada não surpreende."
Ele recomenda que o Brasil negocie, como todos os outros países estão fazendo, em vez de recorrer a retaliações. "Eu vejo algumas pessoas no Brasil falando em retaliação, em usar a lei de reciprocidade. Até podemos fazer, mas, francamente, nenhum outro país fez isso até hoje. Só a China. Mas a gente não pode comparar o poder de fogo da China com o brasileiro. A China fez isso e conseguiu fazer com que os Estados Unidos repensassem muito do que eles vinham fazendo. Mas a China é um mercado que é fundamental para os Estados Unidos. O Brasil não é. O Brasil não terá nenhuma capacidade de fazer os Estados Unidos reverem as suas estratégias por meio de retaliações ou medidas de reciprocidade."
Disputa política e responsabilidades
Questionado sobre a responsabilidade do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro, Azevêdo afirma que "na parte política os políticos que se entendam. Haverá acusações de parte a parte. Um lado vai dizer que o outro não quer negociar. O outro vai dizer que o outro lado foi quem provocou isso. Essas acusações, para mim, não resolvem o problema e não vão levar adiante medidas e ações que possam reduzir o impacto contra a nossa economia."
Ele ressalta que "quem tem mais responsabilidade sobre isso é o presidente Trump. Foi ele quem tomou a decisão de adotar essas medidas para reindustrializar os Estados Unidos, para trazer investimentos para dentro dos Estados Unidos, para arrecadar recursos e arrecadar fundos para viabilizar programas de incentivo fiscal que ele vem adotando em outras áreas. É uma decisão que não afetou apenas o Brasil, mas também outros vários países."
O futuro do Pix
Sobre o Pix, Azevêdo esclarece que o relatório do USTR não dá uma ênfase diferente ao Pix em relação a outros temas. "São seis temas que eles levantam. No relatório tem corrupção, desmatamento, etanol, propriedade intelectual, plataformas digitais. O Pix é uma delas. Não vejo nada de excepcional no tratamento que eles dão ao Pix. Pelo contrário, eles alegam que o problema do Pix não é o Pix em si, mas a forma como o Pix é administrado, porque ele é administrado pelo próprio órgão regulador que é o Banco Central. O questionamento é sobre o fato de que é o órgão central que impõe as regras sobre os concorrentes do Pix, que vêm a ser, por exemplo, Visa, Mastercard, etc."
Ele conclui que "no Brasil, está se fazendo muito alarde em torno do Pix, mas não acho que o Pix vai sofrer nenhuma alteração. Eles (os EUA) não vão pedir nada disso. O que eles gostariam é que o Pix fosse administrado de forma diferente e o pedido pode ser ou não atendido pelo Brasil."
Por fim, Azevêdo considera que "tudo está sendo explorado de forma política, por um lado ou pelo outro lado. É inevitável. Estamos em um ano eleitoral. É claro que essas coisas vão ser exploradas do ponto de vista eleitoral. Seria absolutamente impensável que não fossem exploradas. O que nós não podemos é perder a perspectiva do impacto real sobre a economia."



