A decisão da Fifa de expandir a Copa do Mundo para 48 seleções a partir de 2026 transformou o torneio em um negócio voltado para países ricos, segundo analistas e dirigentes. A mudança, aprovada em 2017, visa aumentar a receita com direitos de transmissão e patrocínios, mas levanta preocupações sobre a elitização do futebol e a exclusão de nações em desenvolvimento.
Expansão como oportunidade de mercado
Com 48 seleções, a Copa passará a ter 104 partidas, contra 64 do formato atual. A Fifa estima que a receita adicional com o torneio chegue a US$ 1 bilhão, principalmente de mercados como Estados Unidos, China e Europa. Países ricos, como os anfitriões da edição de 2026 (Estados Unidos, Canadá e México), já se beneficiam de estádios modernos e infraestrutura turística, enquanto nações pobres enfrentam dificuldades para sediar jogos.
“A Copa virou um produto para gerar lucro, não para promover o futebol global”, disse Jérôme Valcke, ex-secretário-geral da Fifa, em entrevista ao jornal Le Monde. “Os países ricos têm vantagem competitiva para sediar e lucrar com o evento.”
Críticas à elitização
Dirigentes de federações africanas e asiáticas criticam a concentração de vagas e recursos. A África, que tem 54 países, terá apenas 9 vagas na Copa de 2026, enquanto a Europa terá 16. “O futebol está se tornando um clube de ricos”, afirmou Ahmad Ahmad, presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF). “Precisamos de mais investimento em infraestrutura, não de mais jogos em países desenvolvidos.”
Dados da Fifa mostram que os custos de sediar uma Copa com 48 seleções podem ultrapassar US$ 15 bilhões, valor inviável para a maioria dos países. Apenas nações com economias fortes, como Alemanha, Inglaterra e Japão, têm condições de arcar com os gastos.
Impacto no calendário e nos jogadores
A expansão também pressiona o calendário do futebol mundial. O torneio passará a durar 40 dias, contra 32 do formato atual, aumentando o desgaste físico dos jogadores. Sindicatos de atletas, como a FIFPro, alertam para o risco de lesões e sobrecarga. “Os jogadores são tratados como mercadorias”, disse o secretário-geral da FIFPro, Jonas Baer-Hoffmann. “A Fifa prioriza o lucro em detrimento da saúde dos atletas.”
Além disso, a qualidade das partidas pode ser afetada, com mais jogos desequilibrados entre seleções de diferentes níveis. Na última Copa, a diferença média de gols entre o primeiro e o último colocado nos grupos foi de 2,5 gols. Com 48 seleções, essa disparidade tende a aumentar.
Reações e perspectivas
Apesar das críticas, a Fifa defende a expansão como forma de democratizar o futebol. “Mais seleções significa mais países participando do maior evento esportivo do mundo”, afirmou o presidente da Fifa, Gianni Infantino. “Isso gera oportunidades para todos.” No entanto, especialistas apontam que os benefícios financeiros são concentrados nos países ricos, enquanto as nações pobres arcam com os custos de preparação.
A Copa de 2026 será a primeira com 48 seleções, e já há especulações sobre uma possível expansão para 64 times no futuro. Por enquanto, o torneio segue como um negócio lucrativo para poucos, enquanto o futebol global busca equilíbrio.



