Quase 85% dos eleitores colombianos concentraram seus votos em duas candidaturas presidenciais que oferecem soluções radicalmente distintas para os problemas nacionais. Os candidatos de centro desapareceram do mapa eleitoral. A Colômbia vai ao segundo turno, no próximo dia 21, mais polarizada do que em qualquer momento recente.
Um plebiscito sobre o governo Petro
Há um componente plebiscitário nas eleições. O governo do progressista Gustavo Petro chega ao fim sob críticas crescentes à sua política de segurança, à condução da economia, às dificuldades do sistema de saúde e às tensões com instituições que vão do Congresso ao Banco Central. Seria um erro, porém, concluir que o eleitorado rejeitou a esquerda. Iván Cepeda, senador associado às negociações de paz e à agenda socialista de Petro, teve 40,9% dos votos – chegando em segundo lugar, mas com um contingente superior ao de Petro nas eleições passadas.
Cepeda tampouco deve ser confundido com o Petro que chegou ao poder em 2022 cercado de figuras moderadas e empenhado em tranquilizar mercados e adversários. Se vencer, sua gestão deve manter – e possivelmente aprofundar – a radicalização assumida pelo governo nos últimos anos. A reação de Petro e Cepeda ao resultado das urnas, lançando suspeitas sem provas, só reforça essa percepção.
A direita se reinventa
A novidade mais significativa surgiu do outro lado do espectro. Durante duas décadas, a direita esteve organizada em torno da figura do então presidente Álvaro Uribe e suas políticas de segurança. O uribismo segue relevante, mas perdeu a primazia da representação conservadora. A derrota da candidata da direita tradicional, Paloma Valencia, com apenas 6,9% dos votos, mostrou que uma parcela expressiva do eleitorado prefere uma linguagem diferente e líderes diferentes.
Abelardo “El Tigre” de la Espriella, um advogado criminalista frequente nos meios de comunicação e crítico feroz do establishment, conquistou o primeiro lugar (43,7% dos votos) com promessas de, por um lado, restaurar a autoridade do Estado enfrentando o crime organizado com métodos extremos de repressão e, por outro, reduzir o peso do Estado na economia. Em seu discurso e estratégia, há ecos do libertarismo econômico de Javier Milei, da guerra cultural de Donald Trump e, sobretudo, da agenda “mano dura” de Nayib Bukele.
Segurança: o tema central
A segurança provou-se o principal eixo organizador da eleição. Nos últimos anos, grupos armados expandiram sua presença territorial, o narcotráfico voltou a crescer, a produção de cocaína atingiu níveis recordes e a extorsão se espalhou por áreas antes estáveis. A política petrista da “Paz Total”, concebida para reduzir a violência por meio de negociações simultâneas com diversos grupos armados, perdeu credibilidade entre muitos eleitores.
Contexto regional
Essa situação aproxima a Colômbia de outras experiências recentes da América Latina. Nos últimos anos, Argentina, Equador, Chile, Honduras e Bolívia elegeram governos de direita ou centro-direita. Há uma mudança regional em curso. Ainda assim, não se pode reduzi-la a uma simples maré ideológica. Fadiga com incumbentes, descrédito dos partidos tradicionais e colapso dos espaços centristas ajudam a enquadrar o fenômeno. A região pende à direita, mas por caminhos distintos e instáveis.
Perspectivas para o segundo turno
Espriella entra no segundo turno com ligeiro favoritismo. Ele recebeu o apoio de Valencia e disputa um eleitorado que tende a ver com ceticismo a continuidade do governo. Mas a competição segue aberta. Cepeda demonstrou que a esquerda conserva força social, organização e capacidade de mobilização.
O segundo turno decidirá quem governará a Colômbia. O primeiro já definiu outra questão. O equilíbrio político que estruturou o país por décadas ficou para trás. A esquerda continua sendo uma força nacional, mas está mais radicalizada. O monopólio do uribismo na direita cedeu ante um movimento também mais radicalizado. O centro será o fiel da balança na disputa, mas perdeu a capacidade de organizá-la. O certo é que o próximo presidente herdará um país mais dividido, mais impaciente e mais difícil de governar do que aquele que existia quando Petro chegou ao poder.



