Os profissionais de saúde que combatem um surto de Ebola no leste da República Democrática do Congo enfrentam uma grave escassez de recursos. Faltam pessoal para identificar casos suspeitos, ambulâncias para transportá-los e até materiais de construção para montar alas de isolamento, afirmaram autoridades e trabalhadores humanitários à Reuters.
Um mês após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado emergência internacional, o surto da rara cepa Bundibugyo já atingiu mais de 800 casos confirmados. Crescem os alertas de que esta pode se tornar a pior epidemia já registrada, superando a da África Ocidental entre 2014 e 2016, que matou mais de 11 mil pessoas.
Sobrecarga e contatos não rastreados
As equipes de saúde estão tão sobrecarregadas que dezenas de milhares de contatos de casos confirmados continuam sem ser rastreados, disse Jean Kaseya, diretor-geral do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, à Reuters. Ele apontou a insegurança e o ambiente urbano, marcado pela intensa atividade de mineração, como os principais obstáculos.
“Após quatro semanas, temos um surto em uma área urbana onde há insegurança, onde há essa atividade de mineração e comércio, e também onde não estamos alcançando todas as pessoas que deveriam estar na lista de contatos”, afirmou Kaseya na noite de terça-feira. “Se não alcançarmos essas pessoas, não podemos dizer que vamos vencer esse surto.”
Pacientes fogem e ficam à espera
Mesmo os casos identificados, que podem representar apenas uma fração do total devido à insuficiência de testes e lacunas nos dados, nem sempre são isolados e recebem cuidados adequados. “Temos pessoas que foram internadas e decidiram fugir por diversos motivos. Temos pessoas com resultado positivo que não foram internadas. E também observamos várias pessoas que estão internadas, mas acreditamos que não estejam recebendo o apoio adequado”, acrescentou Kaseya.
Um relatório da OMS mostrou que cerca de um terço dos 241 alertas sobre novos casos suspeitos em Ituri, a província mais afetada, não estavam sendo acompanhados até 14 de junho.
Manel Rebordosa, coordenador da resposta ao Ebola da Oxfam na cidade de Bunia, disse à Reuters que uma mulher com sintomas, incluindo febre e sangramento, em um centro médico de Rwampara que ele visitou esta semana, ficou esperando por horas. “Eles estavam ligando para o sistema de vigilância, mas ninguém apareceu, pois o sistema cobre muitas zonas de saúde e não dispõe de ambulâncias suficientes”, relatou.
Equipes de enterro subdimensionadas
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África informou que as equipes responsáveis por enterros seguros e descontaminação em Ituri contam com apenas cerca de 15% do pessoal necessário e 7% dos veículos necessários.
O ministro da Saúde do Congo, Samuel-Roger Kamba, rejeitou as sugestões de que o surto está superando a capacidade de resposta. Em uma coletiva do governo na segunda-feira, ele afirmou que o ministério treinou 1.200 agentes comunitários e mobilizou 1.000 deles para fazer visitas porta a porta, rastreando contatos e casos suspeitos, com o acompanhamento de contatos atualmente em 63%.



