Em 2025, os cubanos superaram os venezuelanos como o grupo com mais pedidos de refúgio no Brasil, segundo dados oficiais. A crise econômica e energética prolongada na ilha caribenha força milhares a buscar uma vida melhor no país, mas a jornada é marcada por exploração financeira, medo e desinformação.
Rota clandestina e exploração por coiotes
A principal rota clandestina usada pelos migrantes cubanos começa com um voo de Havana para Georgetown, na Guiana. De lá, seguem para Lethem, na fronteira com o Brasil, onde cruzam o Rio Tacutu de barco durante a noite para chegar a Bonfim, em Roraima. Os coiotes cobram valores exorbitantes: a passagem aérea de Havana a Georgetown custa cerca de US$ 1,5 mil (R$ 7,6 mil) para adultos e US$ 1,1 mil (R$ 5,6 mil) para crianças, sempre adquirida por meio das redes dos contrabandistas.
Evelio Vázquez, de 45 anos, que hoje apoia conterrâneos em Boa Vista, descreveu a experiência como a pior de sua vida. Ele viajou com o filho epiléptico, dois filhos autistas e a esposa. "Meu filho foi colocado em outro veículo. Aquilo foi desesperador", relatou. Vázquez contou que os coiotes espalham fake news para coagir os migrantes: "Dizem que o cubano não pode entrar legalmente no Brasil, que será preso ou deportado. Como chegamos sem conhecer a legislação, acreditamos".
Desinformação e abandono
Muitos cubanos desconhecem que podem solicitar refúgio gratuitamente à Polícia Federal ao chegar ao Brasil. Ávila Basulto, de 28 anos, resgatado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em junho, pagou US$ 300 (R$ 1,5 mil) para ser levado de Lethem a Boa Vista, mas foi abandonado na estrada. "Tivemos que caminhar cerca de 15 ou 20 quilômetros. Foi muito difícil", disse. Ele foi um dos 189 cubanos resgatados pela PRF entre 8 e 11 de junho, muitos apresentando desnutrição, desidratação e abalo emocional.
Thomas Joel Franco, mecânico cubano, passou cinco dias quase sem comer nem dormir durante a travessia. "Tomava muito pouca água e comia bolacha para conseguir seguir caminhando", afirmou. O médico Rodolfo Canet, de 28 anos, hoje repositor em Curitiba, explicou que seu salário em Cuba equivalia ao preço de um litro de gasolina.
Custos elevados e venda de patrimônio
Para financiar a viagem, muitos vendem bens por valores irrisórios. Os pais de Evelio Vázquez venderam a casa da família por apenas 5% do valor real. "Meu pai e minha mãe eram profissionais e o único patrimônio que tinham era essa casa. Eles venderam tudo", contou. Os coiotes cobram entre US$ 350 (R$ 1,7 mil) e US$ 500 (R$ 2,5 mil) por pessoa para o trajeto Georgetown-Lethem, enquanto guianenses pagam cerca de US$ 80. O transporte de Lethem a Bonfim, que custa R$ 100 para brasileiros, é cobrado dos cubanos em até US$ 450 (R$ 2,2 mil). Pacotes completos chegam a US$ 10 mil (R$ 50,8 mil).
Falta de acolhimento e ação das autoridades
A fronteira em Roraima não possui estrutura adequada para receber os migrantes, deixando-os expostos a criminosos. O delegado da Polícia Federal Adolpho Pereira, da Delegacia de Imigração em Roraima, defendeu: "Os migrantes [cubanos] são vítimas; não são considerados criminosos. Eles devem receber atendimento humanizado". Apesar dos riscos, a esperança de uma vida melhor continua atraindo cubanos, que enfrentam em seu país apagões de até 36 horas seguidas, como relatou Eliezer Pantoja, de 23 anos, que vive em Roraima há quatro meses.



