Poucas comidas parecem mais americanas do que o hot dog, um clássico em estádios de beisebol, carrinhos de rua e churrascos deste 4 de julho, o Dia da Independência dos Estados Unidos. Mas chamar um cachorro-quente simplesmente de “americano” é perder uma enorme quantidade de nuances e, potencialmente, ofender os conhecedores locais existentes por todo o país. Como preparar e comer um hot dog é uma questão de orgulho regional nos Estados Unidos. Qual é o melhor? A resposta provavelmente é aquele com o qual a pessoa cresceu. Aqui estão apenas algumas formas que um cachorro-quente pode assumir no país.
Nova York: o clássico dirty water dog
Por toda a cidade de Nova York, você ainda encontra carrinhos vendendo hot dogs fervidos (Sabrett’s e Nathan’s são dois dos grandes nomes). Eles são carinhosamente conhecidos como “dirty water dogs” (cachorros-quentes de água suja), embora a “água suja” seja, na verdade, uma salmoura temperada que mantém as salsichas quentes em tanques de aço inoxidável. Um clássico de Nova York geralmente é servido com chucrute, mostarda escura picante e molho de cebola (onion sauce), que leva cebolas fatiadas em um molho temperado à base de tomate. “Há algo num cachorro-quente simples, bem firme e salgadinho acomodado num pão macio que me traz muita alegria”, diz Isabel Tzeng, ceramista e fã do clássico de Nova York. Isabel faz uma peregrinação anual à primeira unidade do Nathan’s Famous no calçadão de Coney Island, bairro no litoral do Brooklyn. O Nathan’s realiza ali seu famoso campeonato anual para decidir quem come mais hot dogs, realizado todo 4 de julho.
Chicago: sem ketchup, com todos os acompanhamentos
Já em Chicago o engenheiro de software e nativo da cidade Zach Cmiel gosta do seu cachorro-quente com todos os acompanhamentos do estilo local: “mostarda, relish verde, cebola, tomate, picles, sport pepper (um tipo de pimenta em conserva) e sal de aipo”. Os hot dogs de Chicago são cozidos no vapor ou grelhados no fogo. Os pães quentes quase sempre têm sementes de papoula. Ketchup não é permitido. Cmiel cita o Gene and Jude’s, a Guthrie’s Tavern e o The Wiener’s Circle como seus lugares favoritos de toda a vida. No The Wiener’s Circle, as salsichas são grelhadas até ficarem tostadas e abertas ao meio. Enquanto faz o pedido, você pode esperar ser gritado pelos funcionários, e você tem permissão para responder da mesma forma. Os cachorros-quentes não são as únicas coisas tostadas e ásperas no The Wiener’s Circle.
Cincinnati e Detroit: chili e queijo
Cincinnati, no Estado de Ohio, é outra capital americana do hot dog. Lá, você encontrará o prato coberto com chilli (de textura fina, apenas carne, sem feijão), mostarda e cebola, e depois uma montanha de queijo ralado. O cachorro-quente perfeito de Cincinnati leva tanto queijo que você não consegue ver o que está por baixo. O hot dog no estilo de Detroit, maior cidade do Estado de Michigan, leva o molho Coney – um chilli de carne bovina sem feijão ou molho de carne – e, novamente, mostarda e cebola. Não muito longe dali, em Flint, outra cidade de Michigan, há um Coney dog com um molho de carne seco e esfarelado, ao contrário do molho mais ensopado servido em Detroit.
Kansas City e Sudoeste: barbecue e influência mexicana
Em Kansas City, no Estado do Missouri, você pode se pegar numa discussão sobre hot dog. Um grupo diz que a salsicha Reuben deveria ser o hot dog oficial de Kansas City, enquanto outros preferem a tradição de churrasco do Estado e acham que o hot dog perfeito deve ser coberto com burnt ends (pontas tostadas de peito de boi), molho barbecue de Kansas City e algo crocante como cebolas fritas bem fininhas. O cachorro-quente de Sonora, popular no Arizona, teve suas origens no México e traz uma salsicha envolta em bacon, feijão carioca quente, cebolas grelhadas e cruas, tomates em cubos, mostarda, salsa de pimenta jalapeño e maionese ou creme. É servido em um pão mexicano macio, adocicado e em formato de canoa chamado bolillo.
Virgínia e Carolina do Norte: slaw dogs e tradição
Em outros lugares, os moradores da Virgínia adoram seus slaw dogs, especialmente quando pedidos “com tudo dentro”, levando um chilli de carne sem feijão, salada de repolho (coleslaw) e cebolas picadas. “Qualquer tipo de chilli é um bônus e eu aceito a salada de repolho se estiver disponível”, diz Boo Phillips, de Chapel Hill, no Estado da Carolina do Norte, embora reconheça que “metade vai parar no meu colo”. Ele faz questão de comer cachorros-quentes sempre que viaja, mas é um grande fã do Bill’s Hot Dog Stand, mais perto de casa, fundado em 1928. E ele é totalmente contra o ketchup.
Pittsfield e norte de Nova York: mini culturas locais
Pittsfield, cidade de Massachusetts, tem uma minicultura de cachorro-quente, mas bastante específica. No Hot Dog Ranch (com 94 anos de história), o cozinheiro veterano Jordan Adams diz que o cachorro-quente de carne bovina “com tudo” (everything dog), o mais vendido, é servido com uma receita secreta do molho Coney preparado a cada poucos dias por um único funcionário, escolhido a dedo antes da abertura da loja. Também leva mostarda amarela e cebolas picadas. As salsichas têm cerca de 10 centímetros de comprimento. O norte do Estado de Nova York ostenta uma robusta cultura de cachorro-quente. No Nick Tahou’s Hots, uma meca do cachorro-quente em Rochester desde 1918, o Garbage Plate (Prato de Lixo) é uma montanha de comida que inclui feijão cozido, batatas rústicas fritas, hot dogs, mostarda e um ragu de carne grosso e fortemente temperado. É consumido mais classicamente com pão na manteiga e mac and cheese (macarrão com queijo).
Tonawanda, Baltimore e Washington: grelhados, fritos e half-smokes
Em Tonawanda, um subúrbio da cidade de Buffalo, o Ted’s Hot Dogs meio que amassa as salsichas contra as grades da grelha até que fiquem achatadas, tostadas e crocantes. Não é tão suculento quanto outros métodos, mas é um deleite para quem gosta de comida grelhada com aquele sabor inconfundível de brasa. Elas são servidas com um molho picante artesanal. Baltimore, cidade de Maryland, tem os frizzled hot dogs, que são cortados ao meio e fritos em óleo. A capital do país, Washington, tem os half-smokes, salsichas grandes, crocantes e picantes.
O clássico do Costco: combo por US$ 1,50
Existe um clássico amado em todo o país. “Meu cachorro-quente favorito de todos os tempos é o humilde cachorro-quente do Costco”, afirma Isabel, de Nova York, dizendo que já comeu em unidades do Costco ao redor do mundo. “Este é o hot dog do povo, o grande consenso.” O combo de cachorro-quente e bebida do Costco custa US$ 1,50, e se mantém assim desde a década de 1980. Não importa como você monte o seu, o cachorro-quente continua sendo uma das comidas mais democráticas que existem – barato, rápido, infinitamente adaptável e capaz de inspirar o tipo de lealdade geralmente reservada a times de futebol e receitas de família. Discuta sobre os acompanhamentos o quanto quiser. No fundo, esse é o objetivo.



