Pele humana doada: o novo tratamento radical da K-beauty
Pele humana doada: nova aposta radical da K-beauty

Quando o dermatologista explicou que o novo tratamento era feito "de gente morta", a influenciadora Sara Yoon achou que tinha ouvido algo saído de um filme de ficção científica. Aos 40 anos, nascida em Nova Jersey e morando em Seul desde 2023, ela logo entendeu que se tratava de uma das apostas mais recentes da indústria da beleza da Coreia do Sul: um procedimento que usa tecido humano doado para tentar reverter sinais de envelhecimento da pele.

Nas clínicas sofisticadas de Gangnam, um dos centros da estética sul-coreana, tratamentos desse tipo passaram a atrair pacientes dispostos a pagar caro pela promessa de uma pele mais jovem. Uma sessão do Re2O, um dos produtos que lideram essa nova onda, custa entre 600 mil e 800 mil won sul-coreanos, o equivalente a cerca de R$ 2 mil a R$ 2,7 mil. O valor é aproximadamente quatro vezes maior do que o cobrado por tratamentos tradicionais de rejuvenescimento da pele, segundo a Bloomberg.

O crescimento da demanda impulsiona empresas

A procura cresceu em ritmo acelerado e também impulsionou o setor. As ações da L&C Bio Co., empresa sul-coreana de biotecnologia que desenvolveu o Re2O, mais que dobraram no último ano. O movimento mostra como a indústria da beleza da Coreia do Sul está ampliando os limites da chamada K-beauty, conhecida mundialmente por cosméticos, rotinas de cuidados com a pele e produtos voltados ao chamado "rosto de vidro". Agora, a nova fronteira está nos procedimentos médicos regenerativos.

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O que é o Re2O e como funciona?

O Re2O não é o único tratamento que chama atenção pelos ingredientes utilizados. Outro procedimento popular na Coreia do Sul é o Rejuran, um injetável feito com DNA de salmão. Há também o Laetigen, que utiliza colágeno de porco. Esses tratamentos estimulam a produção natural de colágeno pela pele.

A diferença do Re2O está na proposta de reconstrução. O produto usa uma matriz extracelular (MEC), estrutura rica em proteínas como o colágeno e obtida a partir de pele humana processada. O material é injetado no rosto e no pescoço para criar uma espécie de suporte onde as células do próprio organismo possam se desenvolver. O slogan da empresa resume a proposta: "pele sobre pele".

Segundo a Bloomberg, a pele usada no produto vem de tecido humano doado nos EUA e certificado pela Association for Advancing Tissue and Biologics (AATB), entidade que estabelece padrões para o uso seguro de tecidos humanos doados.

"Trata-se simplesmente do tecido cutâneo sem nenhuma célula, para evitar rejeição imunológica e efeitos colaterais alérgicos", afirmou Kim Han-saem, dermatologista-chefe da Clínica de Dermatologia do Departamento de Defesa de Seul, em entrevista à Bloomberg. "Quando você injeta em uma pele envelhecida ou danificada, você não está estimulando, mas reconstruindo-a, e é por isso que se trata de uma abordagem completamente diferente", disse o médico.

Demanda supera produção e lucro dispara

A procura pelo tratamento cresceu mais rápido do que a capacidade de produção. Segundo Kim, alguns pacientes passaram a esperar até um mês por uma consulta. A L&C Bio produz atualmente cerca de 80 mil frascos de Re2O por mês. O plano da empresa é elevar essa capacidade para 150 mil unidades mensais no segundo semestre e chegar a 300 mil nos próximos dois anos, segundo o presidente-executivo da companhia, Lee Whan Chul.

O crescimento já aparece nos resultados financeiros. O lucro operacional da empresa no primeiro trimestre aumentou 917% em relação ao mesmo período do ano anterior e chegou a 6 bilhões de won, segundo a Bloomberg. "Estamos recebendo consultas do mundo todo, também graças ao boom da beleza coreana", afirmou Lee à Bloomberg.

O produto, cujo nome significa "Retorno aos 20 anos", já é exportado para países como Singapura e Japão. A empresa pretende ampliar as vendas para Austrália, Hong Kong, Malásia, Rússia e Tailândia, além de entrar no mercado americano no próximo ano, segundo o executivo.

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O negócio do envelhecimento

A aposta das empresas ocorre em um mercado global que cresce com o envelhecimento da população e a busca por tratamentos capazes de retardar sinais visíveis da idade. O mercado global de produtos e serviços antienvelhecimento deve quase dobrar até 2035, alcançando US$ 150 bilhões. A expansão é impulsionada principalmente pela Ásia, onde o aumento da renda, a influência das redes sociais e o envelhecimento da população ampliam a procura.

A mudança também aparece no setor médico sul-coreano. O número de cirurgiões plásticos em consultórios particulares quase dobrou na última década e ultrapassou 2.700 profissionais, segundo dados citados pela Bloomberg. Com salários mais altos e demanda crescente, médicos de diferentes especialidades passaram a migrar para a medicina estética.

Dilemas éticos

Críticos questionam se o uso de tecidos doados para fins cosméticos pode competir com aplicações médicas tradicionais, como a reconstrução mamária e o tratamento de queimaduras. A popularização desses procedimentos mostra um dilema da nova era da beleza: até onde os consumidores estão dispostos a ir — e quanto estão dispostos a pagar — para tentar recuperar uma aparência mais jovem.

Para pacientes como Sara Yoon, a decisão passa pela confiança nos médicos e pela disposição de experimentar novidades. "Passei a adotar mais essa mentalidade cultural de confiar bastante no médico", resumiu a influenciadora à Bloomberg.