Leilão da Régis Bittencourt em 23 de julho deve ter disputa qualificada
Leilão da Régis Bittencourt em 23 de julho atrai grandes operadoras

O mercado de capitais se prepara para mais um leilão rodoviário neste ano, possivelmente o último. Agendada para 23 de julho, a concessão da rodovia Régis Bittencourt é apontada como o último grande ativo federal a ser licitado em 2026. O processo envolve a venda de 100% da Autopista Régis Bittencourt, hoje controlada pela Arteris, e vai consagrar como vencedora a companhia que oferecer o maior desconto na tarifa de pedágio.

Características da concessão

Com 383 quilômetros na BR-116, a rodovia conecta São Paulo (SP) a Curitiba (PR). O novo contrato de 15 anos prevê R$ 7,2 bilhões em investimentos, incluindo 69 km de duplicação, novas vias marginais, contornos e manutenção, movimentando os planos de expansão das concessionárias.

A relevância logística do trecho deve assegurar uma disputa qualificada entre as principais empresas do segmento. Em relatório divulgado ao mercado, os analistas do Bradesco BBI destacaram a rentabilidade expressiva projetada para o negócio, o que impacta diretamente as expectativas de valorização das companhias.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Projeções de retorno

“Estimamos que este projeto possa gerar retornos entre a faixa média de 15% e 20% (TIR real alavancada e incluindo as premissas de ‘M&A’ deste tipo de projeto)”, diz o relatório do BBI. Os analistas do BBI pontuam que essa Taxa Interna de Retorno (TIR) associada a possíveis Fusões e Aquisições (M&A) é baseada em um desconto tarifário estimado de 17%, tráfego inicial acima do modelo do governo, eficiências de 15% em despesas operacionais e investimentos, e alavancagem de 60% do consumo de caixa nos primeiros cinco anos.

Já em relatório do BTG Pactual, os analistas apontaram que o projeto possui uma TIR inicial calculada pelo governo em 11,41%. O banco de investimentos ressaltou que a licitação por desconto tarifário, sem outorga antecipada, alivia o balanço dos licitantes, indicando também que o ativo se encaixa nos planos da Motiva (MOTV3).

Estratégia da Motiva

“Seguindo a estratégia de reciclagem de capital da Motiva (venda de aeroportos e potencial desinvestimento de participações minoritárias em ativos ferroviários), a companhia deve ter caixa suficiente para expandir seu negócio de rodovias”, afirmam os analistas do BTG Pactual. A companhia vem de vendas de aeroportos e ferrovias, acumulando caixa para focar em rodovias premium, onde suas margens superam a média do mercado.

“A primeira característica é sustentada por seu perfil de margem mais alto, acima da margem consolidada de aproximadamente 76% da Motiva em seu segmento de rodovias”, diz o relatório. Segundo o BTG, essa alta rentabilidade corporativa é garantida pela localização geográfica estratégica do corredor, rota crítica para o agronegócio até o Porto de Paranaguá, o que assegura forte fluxo de veículos pesados e receita resiliente para a operação da empresa vencedora.

Estrutura do leilão

Por se tratar de uma renegociação regulatória, o leilão adota uma estrutura de M&A privados: o vencedor assume a Sociedade de Propósito Espacial (SPE) da concessão e herda sua dívida líquida atual. O Bradesco BBI considera que essa engenharia traz facilidades estruturais importantes para precificar os papéis, mas exige cautela dos investidores em relação às garantias contratuais.

“Existem características estruturais que devem fomentar a competição, incluindo: 1) sua importância estrutural para o Brasil e características bem conhecidas; 2) o fato de possuir um perfil semelhante ao de um título de renda fixa, dado que as garantias de receita são altas devido à indexação pela inflação e à banda de mitigação de tráfego; 3) mecanismos de compartilhamento de riscos para tráfego, preços de insumos, licenciamento ambiental e custos de desapropriação; e 4) pressão limitada de alavancagem”, pontua o relatório do Bradesco BBI.

Por outro lado, o banco ressalta desafios operacionais que afetam a visibilidade das ações, como a baixa transparência sobre passivos acumulados da operadora antiga, menor duração do contrato e forte fiscalização nos primeiros três anos de transição. O modelo de releilão entra para mitigar essas incertezas contratuais.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Reestruturação regulatória

“Esse movimento de renegociações faz parte da agenda regulatória positiva em curso no setor, reforçando a colaboração contínua entre o poder concedente e as concessionárias na preservação da viabilidade econômica de cada projeto”, explica o documento do BTG. Esse processo de reestruturação já foi aplicado em trechos da EcoRodovias (ECOR3), como a Eco101, e da Arteris, como a Fernão Dias.

Competição sem agressividade

Os juros altos no Brasil e o forte consumo de caixa decorrente de leilões passados devem conter lances muito agressivos das operadoras, blindando o retorno do capital dos acionistas. A própria Arteris enfrenta restrições de capital por alavancagem alta, limitando seu apetite em defender o ativo.

Ainda assim, citando a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o BTG Pactual indicou que o evento atrai concorrência, monitorando de perto os movimentos de nomes como a EPR, a gestora Pátria Investimentos e a própria EcoRodovias. O ativo representa uma oportunidade atraente de alocação de capital para o portfólio dessas corporações, mas as condições macroeconômicas devem ditar a sobriedade dos envelopes.

“Portanto, embora um número relevante de empresas possa participar, ainda vemos lances agressivos como improváveis”, conclui o relatório do BTG Pactual.