Antes de a Boeing nomear Kelly Ortberg como CEO, em agosto de 2024, a fabricante de aviões enfrentava uma crise profunda. A confiança de que um dos maiores ícones da indústria americana recuperaria seu brilho estava se esgotando. Justamente quando a Boeing começava a se recuperar dos acidentes com os 737 Max da Lion Air e da Ethiopian Airlines, em 2018 e 2019, que mataram 346 pessoas, o rompimento de um painel de vedação de porta de um Max sobre Portland, Oregon, em janeiro de 2024, trouxe novamente os holofotes para suas práticas de fabricação, que priorizavam lucros em detrimento da qualidade.
Reguladores federais endureceram a fiscalização e congelaram a produção do Max em um nível um terço abaixo do pico anterior. Ao mesmo tempo, a divisão de defesa e espaço da Boeing acumulava prejuízos bilionários em contratos federais com enormes estouros de custos. A lista de problemas só aumentava: a integração da combalida Spirit AeroSystems, fornecedora de fuselagens que a Boeing havia vendido e concordara em recomprar, elevou o perfil de risco. Para piorar, a Boeing enfrentava uma greve potencialmente devastadora de seu sindicato de 33 mil mecânicos da região de Puget Sound, cujos líderes afirmavam que os trabalhadores precisavam 'salvar a Boeing dela mesma'.
O cargo parecia tão difícil que a Boeing teve problemas para encontrar quem o aceitasse. Entre os nomes sondados sem sucesso estavam Larry Culp, CEO da GE Aerospace; Dave Gitlin, CEO da Carrier Global; e o próprio presidente do conselho, Steve Mollenkopf, ex-chefe da Qualcomm. Ortberg era um nome improvável. Ele havia atuado como CEO da Rockwell Collins por cinco anos, antes de se aposentar. Quando assumiu a Boeing, já estava há mais de quatro anos sem função operacional.
Ortberg tem uma postura discreta e mantém perfil público reservado, mas sua conquista começa a ser reconhecida. A Boeing está a caminho de uma das recuperações mais dramáticas e rápidas já vistas entre grandes empresas em dificuldades. 'A Boeing encontrou em Ortberg o agente de mudança de que precisava', afirma Scott Mikus, analista da Melius Research. 'Graças a Ortberg, o sonho de uma grande empresa industrial continua vivo.'
Um engenheiro experiente
Ortberg reúne as qualidades certas: é engenheiro experiente com histórico de promover relações trabalhistas harmoniosas. Ele restabeleceu uma cultura de 'engenharia em primeiro lugar' na Boeing, uma mudança radical em relação ao foco em recompras de ações que prevaleceu antes dos acidentes com o Max. Ortberg adota uma abordagem sem exibicionismos, baseada no retorno aos fundamentos e avanços graduais, visando melhorias em qualidade, confiabilidade e pontualidade nas entregas.
Também busca acordos vantajosos para ambas as partes com fornecedores, em contraste com a antiga tendência de pressioná-los nos preços. Richard Safran, analista da Seaport Securities, viu Ortberg atuar na Rockwell Collins. 'Ele é do Meio-Oeste americano e segue a filosofia de não tomar decisões antes da hora. É metódico e verifica todos os itens da lista. É um engenheiro tão bom que sabe o suficiente sobre o trabalho de todos para fazer perguntas difíceis. E sabe como ganhar dinheiro', diz Safran.
Uma pessoa que trabalhou ao lado de Ortberg na Boeing se impressiona com a mudança cultural. 'Ele estabeleceu um novo tom. Avalia as pessoas não apenas pelo que fazem, mas por como fazem. Sua abordagem vincula remuneração e promoções à forma como as pessoas tratam umas às outras. Ainda existem pessoas em cargos elevados que não tratam bem os outros? Sim, mas é um bom começo.' Essa mesma fonte destaca as habilidades interpessoais de Ortberg: 'Ele sabe ouvir e tem alta inteligência emocional. Seu foco é devolver a Boeing ao seu lugar.'
Recuperação impressionante
O que torna a recuperação conduzida por Ortberg particularmente impressionante é que ela enfrentou um obstáculo quase imediato: menos de um mês após sua chegada, a greve dos mecânicos reduziu a produção do 737 Max a praticamente zero. Ortberg adotou sua postura conservadora e levantou mais de US$ 24,3 bilhões em novo capital para cobrir perdas e fortalecer o balanço. Ele resolveu a paralisação em 53 dias, e uma série de vitórias veio em seguida.
Em março do ano passado, a Boeing venceu a concorrência da Força Aérea dos EUA para o programa de caça de sexta geração, superando a Lockheed Martin. O contrato abre caminho para uma nova era de lucratividade na área de defesa e espaço. Depois de prejuízo operacional superior a US$ 5,4 bilhões em 2024, a divisão voltou a apresentar lucro no ano passado e, no primeiro trimestre de 2026, obteve US$ 233 milhões de lucro operacional, com margem de 3,1%.
Na aviação comercial, a campanha para reformular os padrões de segurança começou após os acidentes, sob supervisão da FAA. A abordagem sistemática de Ortberg acelerou o progresso. Ele conseguiu elevar o limite de produção do Max de 38 para 42 unidades por mês e espera encerrar 2026 produzindo 52 aeronaves mensais. Ortberg prevê que a Boeing caminhe para gerar US$ 10 bilhões em fluxo de caixa livre. Analistas acreditam que a empresa alcançará essa marca por volta de 2028. O diretor financeiro Jesus Malave afirmou que a Boeing pretende ir além: 'Acredito que o potencial do nosso fluxo de caixa permita superar os US$ 10 bilhões.'
Ortberg recebe muitos elogios das companhias aéreas. 'A Boeing está fazendo um trabalho quase milagroso de recuperação', afirmou Michael Leskinen, CFO da United Airlines. 'Nossa confiança de que os aviões Max serão entregues no prazo nunca foi tão grande.'
Desafios pela frente
Ainda assim, 'capitão Kelly' enfrenta grandes desafios. A empresa sofre com problemas na cadeia de suprimentos, qualidade e certificação, embora tenham diminuído. Falhas de fiação nos modelos Max adiaram entregas, e a escassez de assentos de classe executiva atrasa a produção do 787. Um teste crucial se aproxima em outubro: o contrato com 16 mil engenheiros expira. É essencial que Ortberg, admirado pelos engenheiros, consiga um acordo que evite greve. 'Isso enviaria uma mensagem de que a transformação cultural é real', afirma Mikus.
A Boeing precisará dos melhores talentos para desenvolver uma aeronave nova capaz de igualar a Airbus no segmento de corredores únicos. Desde 2010, a rival conquistou cerca de 60% desse mercado. Ortberg já declarou que a Boeing precisa esperar até que a tecnologia esteja pronta. Uma parte fundamental será a escolha de um motor altamente avançado da GE, RTX ou Rolls-Royce. A grande questão é se Ortberg, cuja cautela tem funcionado, conseguirá agir com rapidez suficiente. 'Ao concentrar esforços em aumentar o fluxo de caixa, eles não estariam deixando o desenvolvimento da próxima geração em segundo plano?', questiona um veterano do setor.
Mas a Boeing possui um trunfo: o novo chefe de desenvolvimento de aeronaves comerciais, Brian Yutko, doutor em aeronáutica pelo MIT. Sua nomeação sinaliza que a Boeing avaliará as opções mais avançadas e reduz o risco de demora. Segundo Wall Street, o momento mais cedo para aprovar um projeto novo seria em 2029 ou 2030, com produção por volta de 2037. Ortberg acaba de completar 66 anos. 'Ele assumiu numa idade em que a maioria dos executivos já está se aposentando', diz uma fonte. Ortberg pode permanecer no comando por vários anos e até tomar a decisão final sobre o novo avião.
Para o conselho da Boeing, a prioridade é estabelecer um plano de sucessão. Felizmente, os diretores estarão em posição muito mais favorável do que quando recrutaram Ortberg. Naquela época, a situação era tão sombria que nem o tamanho colossal da Boeing nem sua reputação bastavam para atrair CEOs renomados. Desta vez, o cargo será muito mais atraente. O mérito é da escolha improvável que se mostrou perfeita para o momento: Kelly Ortberg.



