O árbitro Marcos Roberto de Jesus Nunes acionou o protocolo antirracista da Federação Paulista de Futebol (FPF) após ser vítima de racismo durante a partida entre Votoraty e Referência, pelo Campeonato Paulista Sub-15. O caso aconteceu no estádio Domênico Paolo Metidieri, em Votorantim, na manhã do sábado (1º de agosto). O jogo terminou com a vitória do Referência por 3 a 0.
Ofensa relatada pela delegada da partida
De acordo com a arbitragem, um torcedor chamou o juiz de “macaco” nos minutos finais do primeiro tempo, quando o Referência vencia por 2 a 0. A delegada da partida comunicou o fato a Marcos Nunes, e outras testemunhas confirmaram o episódio. A Polícia Militar foi acionada e conseguiu identificar o torcedor responsável pela ofensa.
Ainda no intervalo, o árbitro sinalizou a abertura do protocolo antirracista e deixou o gramado. Ele foi substituído pelo quarto árbitro, que comandou o segundo tempo até o apito final. Apesar da interrupção na arbitragem, a partida foi concluída sem novos incidentes.
Queixa na delegacia e crime de racismo
Após deixar o estádio, Marcos Nunes seguiu para a delegacia da cidade para registrar a ocorrência. Vítima e acusado foram ouvidos, e um boletim de ocorrência foi lavrado. A Polícia Civil qualificou o agressor pelo crime de racismo, que é inafiançável, com pena prevista de reclusão de dois a cinco anos. O torcedor responderá ao processo em liberdade.
O boletim de ocorrência foi baseado na Lei 7.716/1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. O caso também poderá ser analisado no âmbito desportivo, já que a FPF acompanhará a apuração dos fatos junto às autoridades competentes.
Em sua página pessoal em uma rede social, o árbitro publicou um relato sobre o episódio. O Votoraty, a Prefeitura de Votorantim e a Federação Paulista de Futebol também se manifestaram oficialmente sobre o ocorrido.
Nota da FPF e repúdio à intolerância
A FPF divulgou uma nota oficial em que lamenta e repudia os casos de injúria racial e homofobia registrados na mesma manhã. Além da partida entre Votoraty e Referência, válida pelo Sub-15, houve outra ocorrência no duelo entre São Bernardo FC e Rio Branco, pelo Campeonato Paulista Sub-17. Nos dois jogos, o protocolo do Tratado pela Diversidade e Contra a Intolerância no Futebol Paulista foi acionado pelas equipes de arbitragem.
“A Federação acompanhará a apuração dos fatos junto a todos os envolvidos e às autoridades competentes”, afirmou a FPF em comunicado. “A Federação reforça que não compactua com qualquer forma de racismo, homofobia, discriminação ou violência e seguirá trabalhando para que o futebol paulista seja um ambiente de respeito e inclusão”, completou.
Protocolo antirracista do futebol paulista
O Tratado pela Diversidade e Contra a Intolerância no Futebol Paulista é uma iniciativa da FPF que reúne clubes, federação e autoridades de segurança. O objetivo é estabelecer um procedimento padrão para casos de discriminação nos estádios, com medidas que vão desde alertas sonoros até a suspensão da partida. No episódio de Votorantim, o árbitro optou por deixar o jogo no intervalo para preservar a integridade da arbitragem e formalizar a denúncia.
Esse tipo de ação é considerada fundamental para dar visibilidade ao racismo no futebol de base. A FPF destacou que as ocorrências foram devidamente registradas e que os episódios demonstram a importância de combater a intolerância desde as categorias de formação.
O caso reforça a necessidade de punições severas contra atos de discriminação no esporte. A atitude de Marcos Nunes, ao interromper a própria atuação, pode servir de estímulo para que outros árbitros e atletas também denunciem situações semelhantes, contribuindo para um ambiente de respeito e inclusão nos estádios paulistas.



