Pelé é o maior: refutando a coroação de Messi como melhor de todos os tempos
Pelé é o maior: refutando coroação de Messi

O Brasil produziu o maior atleta de todos os tempos do esporte mais popular do planeta. Virou moda, entre brasileiros, entregar a coroa dele de graça. Isso é falta de orgulho nacional. A Espanha é bicampeã mundial desde domingo, a coroação antecipada de Messi caducou diante do planeta inteiro, e ainda há quem repita a heresia.

Pelé: a régua de 70 anos

Há 70 anos, todo grande jogador é medido contra Pelé. Foi assim com Cruyff, Maradona, Ronaldo Fenômeno, Cristiano Ronaldo e Messi. Em 70 anos de futebol profissional, ninguém mais ganhou três Copas do Mundo. O próprio Pelé, em 2012, perguntado se a Espanha campeã venceria o Brasil de 1970, deu a lógica definitiva: enquanto toda seleção nova for comparada ao time de 1970, é porque o de 1970 segue sendo o melhor.

Números que falam

Messi é um gigante: oito Bolas de Ouro, oito gols nesta Copa aos 39 anos. Mas vejamos o placar da história. Pelé estreou em Copa aos 17 anos, em 1958. Gol nas quartas, três gols na semifinal contra a França de Just Fontaine (maior artilheiro de uma única edição, 13 gols) e dois na final na Suécia. Placar da carreira: quatro Copas, três títulos, nenhuma final perdida. Pelé chegou a esta Copa, 56 anos depois de se aposentar da seleção, ainda como líder em assistências na história dos Mundiais. Nunca fez um gol de pênalti em Copa.

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Messi? Seis Copas, um título, duas finais perdidas. Até 2022, aos 35 anos, nunca havia feito gol em mata-mata de Copa. Na campanha do único título, quatro dos sete gols argentinos saíram da marca do pênalti. Precisou de 25 jogos para superar os 12 gols de Pelé em 14 partidas. Jamais venceu uma final no tempo normal: o título veio nos pênaltis, após empate em 3 a 3 com a França.

O Brasil de Pelé venceu as três finais nos 90 minutos: 5 a 2, 3 a 1 e 4 a 1. Nas duas finais que o Rei disputou, houve goleada e gol dele. Segundo a CBF, o Brasil não marcou nenhum gol de pênalti nas Copas de Pelé.

Contextos diferentes

Pelé nunca enfrentou Argélia, Egito ou Cabo Verde em Copas. As Copas dele tinham 16 seleções, todas de elite. A de hoje foi ampliada para 48, com caminho recheado de confrontos contra equipes menores. Pelé mal jogou duas das quatro Copas: em 1962, lesionou-se e ficou em campo sem substituição; em 1966, foi caçado a faltas. Não havia cartão vermelho, VAR, substituições. A bola era mais pesada, a medicina esportiva incipiente. Mesmo assim, Pelé terminou tricampeão.

O jogador mais completo

Pelé era nota 9,5 a 10 em todos os fundamentos: passe, chute com ambas as pernas, drible, cabeceio. Tinha impulsão de 1,35 m, índices olímpicos nos 100 metros e no lançamento de dardo. Maradona tinha esquerda 10, direita 3 e cabeceava mal. Messi finaliza quase só com a esquerda e não se destaca no jogo aéreo. Pelé, em entrevista à Folha de S.Paulo em 2015, apontou a diferença: chutava com as duas pernas e era mais forte no jogo aéreo.

Tostão dizia que a cabeçada de Pelé era mais forte que seu chute. Zico resumiu: Deus deu todas as valências a um homem só. Pelé é único.

Rivais concordam

Alfredo Di Stéfano: “Nenhum deles, Pelé foi o melhor.” César Luis Menotti: “Pelé era uma mistura de Di Stéfano, Maradona, Cruyff e Messi.” Ferenc Puskás recusava comparar: Pelé estava acima de qualquer classificação. Cruyff: “Posso ser um novo Di Stéfano, mas não um novo Pelé.” Beckenbauer: “Jogador mais completo que já vi.” Bobby Moore: “Dois pés, mágico pelo alto, rápido, forte, equilíbrio perfeito.” Just Fontaine: ver Pelé deu vontade de pendurar as chuteiras.

Grandeza em campo

Aos 22 anos, 500 gols. O milésimo, em 1969, no Maracanã. Mais de 1.200 gols na carreira. Em 1970, comandou o maior esquadrão de todos os tempos. Até os gols que não fez viraram história: drible de corpo sem tocar em Mazurkiewicz, cabeçada que obrigou Gordon Banks à maior defesa da história das Copas. Na final, subiu acima do marcador para abrir o placar de cabeça e deu duas assistências no 4 a 1. Burgnich: “Pensava que Pelé fosse de carne e osso como eu, e estava enganado.”

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Enquanto Messi voou de jatos, o Santos de Pelé viajava de ônibus. Pelé quase não jogava em casa: cerca de 200 partidas na Vila Belmiro. Deu canetas em Beckenbauer, Bobby Charlton, Bobby Moore. Eusébio tomou duas no mesmo lance. As excursões do Santos eram partidas oficiais ou jogos internacionais contra equipes de expressão, como explicou António Simões.

Vítimas ilustres

Dez gols em sete jogos contra o Benfica. Oito em sete contra a Inter de Milão. Seis em cinco contra a Roma. Hat-trick contra o Atlético de Madri. Quatro gols contra o Eintracht Frankfurt. Dois gols contra o Barcelona campeão espanhol. Os europeus contratavam reforços de emergência. Na América do Sul, 8 a 3 no Racing, seis gols em oito jogos contra o Boca Juniors. E um 6 a 4 contra a Tchecoslováquia, vice-campeã mundial.

Messi e o debate

Não é a primeira vez que inventam um rival. Nos anos 1960, Eusébio. Resposta: 5 a 2 contra o Benfica em Lisboa, três gols de Pelé. Costa Pereira: “Fui destruído por alguém que não nasceu no mesmo planeta.” Agora insinuaram Messi. A resposta veio diante do mundo. Messi jogou bem contra seleções de menor tradição; a Argentina enfrentou duas prorrogações e teve um único grande jogo, a virada sobre a Inglaterra, em que deu assistências. Na final, domínio espanhol: Argentina só finalizou na prorrogação, e Messi apareceu apenas depois do gol espanhol. Em 2022, teve lance passível de cartão vermelho contra a Holanda.

No clube, Messi construiu carreira na mesma liga, ao lado de Xavi, Iniesta, Neymar, Suárez. Quando saiu para o PSG, teve período abaixo. Hoje joga na MLS. Enquanto isso, Cristiano Ronaldo, rival de números comparáveis, declara-se melhor que Messi. Pelé não dividiu a era com ninguém: o debate era sobre o segundo lugar. Messi nunca foi unanimidade absoluta nem dentro da própria geração.

O verdadeiro rival de Messi

O rival de Messi é Maradona, e nem essa disputa está decidida: Messi jamais fez em Copa o que Maradona fez em 1986, nem o que Garrincha fez em 1962. A conversa dele está nessa prateleira. A do Rei fica em outra.

Antes da final, jornalistas já coroavam Messi como maior “de longe”. Coroaram-no em junho por algo que Pelé só recebeu após a terceira Copa. Aí veio a final, e a Espanha venceu. Rodrigo Mattos chamou a coroação de injustiça com Pelé.

Contexto histórico ignorado

Cada gol de Messi foi filmado e distribuído em segundos. Da carreira de Pelé, apenas parte dos lances foi registrada; momentos geniais se perderam. Uma geração criada no streaming julga a era do gramofone, rebaixando competições antigas. Isso é ignorar o contexto histórico.

Reconhecimento supremo

Pelé foi eleito Atleta do Século por duas entidades: em 1980 pelo L’Équipe, à frente de Jesse Owens; em 1999 pelo Comitê Olímpico Internacional, vencendo Muhammad Ali, Carl Lewis e Michael Jordan. Nunca disputou uma Olimpíada, mas foi colocado entre os maiores atletas da história.

O Rei é nosso

Pelé transformou a camisa 10 em símbolo mundial. Antes dele, a numeração não tinha o mesmo peso. Até argentinos defendem o Rei. Só brasileiro bundão entrega a coroa. Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-latas. O problema é o Brasil ter parado de comparecer ao debate. A comparação já era ofensa antes do jogo. O apito final apenas calou quem insistia nela. O trono é do Rei. Sempre foi. O Rei é nosso. Defenda o que é seu.