Madonna, Ronaldo e Ronaldinho no show do intervalo da Copa: legado brasileiro em foco
Madonna, Ronaldo e Ronaldinho: show do intervalo da Copa

O término da Copa do Mundo sempre demanda um período de adaptação. Depois de tanta emoção à flor da pele, desfile de qualidade e uma avalanche de jogos e histórias, precisamos voltar ao chão de fábrica. Para nos ajudar neste processo, o Brasileiro já retornou a todo vapor, bem como as partidas válidas pelo mais mundano dos desafios: a repescagem da Sul-Americana. Mas algo continua ecoando da aventura mundialista. Ainda estou elaborando o show no intervalo da decisão.

Um show de 27 minutos: reverência ao futebol brasileiro

Não pela natureza do evento em si, inspirado no futebol americano, que durou uma eternidade de 27 minutos e me parece bastante alienígena em uma Copa do Mundo — a continuar assim, o próximo passo é o Mickey Mouse entregar a taça. No show, a reverência ao nosso futebol mostrou por que o Brasil é o maior emblema histórico quando se trata da arte de jogar bola. A participação de Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno, dirigindo um veículo em que levavam Madonna, bem como a emocionante exibição de imagens de Pelé no telão, foi uma prova de que a herança cultural brasileira no futebol e na cultura popular é incomparável.

1 de 1 Ronaldinho e Ronaldo ao lado de Madonna em show do intervalo — Foto: Reuters

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Do tributo ao incômodo: o legado versus o presente

Depois, o jogo continuou. E, com o passar do tempo, a Espanha caminhando para levantar uma taça que a Seleção Brasileira jamais pareceu capaz de disputar, começou a surgir certo incômodo. O mesmo show que homenageava o legado brasileiro no futebol passou a tomar forma de uma mensagem secundária, mas não menos relevante: o que historicamente se conhece como futebol brasileiro talvez esteja se tornando objeto de culto. O olhar do mundo, quando mira o Brasil em campo, está começando a se deslocar do presente para o passado.

Não é preciso falar novamente sobre a disparidade entre o que o Brasil já foi e o que deixou de ser, mas parte daquele interminável show apontou que o futebol brasileiro recebe devoção pelo seu legado — em recortes específicos de tempo. Uma obra-prima concebida muito tempo atrás, mas pouco presente no cotidiano do grande público. Viramos o Cidadão Kane das Seleções.

Coldplay homenageia Pelé no show do intervalo

Não tenho soluções. Quer dizer, todos temos, e não são poucas. Organização administrativa, investimento em formação de atletas. Todas são evidentes, mas nenhuma parece simples. Enquanto isso não acontece, o Brasil será reconhecido e homenageado, mas os verbos não serão conjugados no presente. Revolucionário, amado e influente, o Brasil continuará evocando memórias afetivas em diferentes idiomas — como um videogame Atari do futebol mundial. É bonito. Também é melancólico. Como tudo aquilo que vive mais na nostalgia do que no presente, no fim das contas.

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