O presidente da Fifa, Gianni Infantino, anunciou na sexta-feira a desistência do projeto de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária que pretendia vender ações a investidores privados. A decisão ocorreu três dias após o anúncio oficial e depois de uma onda de rejeição liderada pela Uefa, pela Concacaf e pela Confederação Asiática de Futebol (AFC).
O recuo marca o momento mais delicado de Infantino desde que assumiu a presidência da entidade. A Uefa, que reúne as federações europeias, defendeu abertamente no sábado a mudança no comando da Fifa. A avaliação interna é que o dirigente suíço saiu da condição de todo-poderoso para a condição de alvo de contestação em poucos dias.
O que era a Fifa Forward Enterprise
A FFE seria uma subsidiária com controle majoritário da Fifa e participações minoritárias de investidores. A ideia era concentrar as operações das principais competições organizadas pela entidade, como a Copa do Mundo e a Copa do Mundo de Clubes, em uma única empresa. O objetivo declarado era arrecadar até 4,2 bilhões de dólares, cerca de R$ 21,5 bilhões.
A reação das confederações continentais foi imediata. A Uefa foi a primeira a se manifestar e anunciou que seus 55 representantes boicotariam competições futuras da Fifa enquanto a proposta não fosse cancelada. A Concacaf, que reúne as Américas do Norte e Central e o Caribe, e a AFC também divulgaram notas oficiais de reprovação.
Além das confederações, o plano sofreu críticas internas. O chefe operacional da Fifa classificou a proposta como um "projeto de uma pessoa só". Um sindicato de atletas, por sua vez, afirmou que o projeto foi concebido "a portas fechadas".
Os caminhos para a saída de Infantino
Com o crescimento da pressão, o ge procurou explicar como seria possível mudar o comando da Fifa. A primeira alternativa é a renúncia, caminho adotado por Joseph Blatter em 2015, quando enfrentava escândalos de corrupção e optou por ceder à pressão. Infantino, no entanto, ainda conta com aliados importantes, como o Marrocos, um dos três principais países-sede da Copa do Mundo de 2030, e não sofreu críticas da Conmebol, confederação sul-americana.
Com esse apoio, Infantino pode tentar se manter no cargo até março, quando ocorre a eleição para o quarto mandato. Se houver um pedido formal de candidatura concorrente, o prazo para registro vai até 18 de novembro.
Reunião de emergência e congresso extraordinário
O Conselho da Fifa pode convocar uma reunião extraordinária para tratar do afastamento do presidente caso 19 dos 37 membros façam a solicitação. O conselho é composto por nove representantes da Uefa, sete da AFC, seis da CAF, cinco da Concacaf, cinco da Conmebol e três da Oceania, além de Infantino e do secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom.
De acordo com apuração da TV britânica BBC, há dúvidas se esse número de 19 membros será alcançado. Caso a reunião seja convocada, ela aconteceria duas semanas após o pedido, e o Conselho poderia pedir a renúncia de Infantino — que, por sua vez, pode se opor à decisão.
Se a questão avançar para um congresso extraordinário, a votação reuniria as 211 associações filiadas. Para derrubar Infantino, seriam necessários 106 votos favoráveis à renúncia. O atual quadro de associações é o seguinte: 55 da Uefa, 54 da África, 46 da Ásia, 35 da Concacaf, 11 da Oceania e 10 da Conmebol.
Vale destacar que 136 das 211 associações se posicionaram contra a criação da FFE. Ainda assim, existem divisões internas. A AFC, por exemplo, criticou Infantino, mas o Catar, que é membro da confederação asiática, manifestou apoio público ao presidente da Fifa.
Possíveis substitutos
A forte oposição da Uefa reduz a chance de um europeu aparecer como candidato. Segundo a imprensa europeia, o principal nome para disputar a eleição contra Infantino é o canadense Victor Montagliani, presidente da Concacaf.
Montagliani tem 60 anos e é empresário. Ele já presidiu a Federação Canadense de Futebol e teve papel de destaque no processo que precedeu a realização da Copa do Mundo de 2026, que será disputada no Canadá, nos Estados Unidos e no México. O dirigente é fluente em inglês, espanhol, italiano e francês.



