Haitianos residentes em Roraima celebram o retorno do Haiti à Copa do Mundo após 52 anos, mas dividem a paixão com o Brasil, país que os acolheu. O motorista de aplicativo Jeff Kelly Douezan, de 41 anos, expressa o sentimento de muitos: "É meu sonho, Haiti seguindo na copa e Brasil também". Durante o Mundial, o grupo no bairro Pricumã, zona Oeste de Boa Vista, vive a alegria de ver sua seleção na competição, sem deixar de lado o amor pelo Brasil.
Sonho de ver os dois times avançarem
Jeff, que deixou o Haiti há 14 anos e se adaptou à cultura roraimense, espera que ambas as seleções tenham sucesso. "Quero que o Haiti ganhe um, e o Brasil ganhe outro. E a gente fique com 4 pontos, e o Brasil fique com 4 pontos também, para que os dois passem", afirma. Ele brinca: "Já virei 'negão macuxi'", referindo-se ao gentílico informal de Roraima.
O Haiti não disputava a Copa desde 1974, tornando a participação atual inédita para muitos. A torcida se divide entre o país de origem e a nação que os acolheu.
Rede de solidariedade e gratidão
No bairro Pricumã, a união dos haitianos surgiu de uma rede de solidariedade que dura mais de uma década. O microempreendedor Francknel Clairisier, o "Fran", de 37 anos, é um pilar da comunidade. "Meu coração ficou bem feliz e alegre por saber que o Brasil vai jogar contra o Haiti. É uma grande manifestação de nós haitianos aqui no Brasil", celebra.
Fran chegou ao Brasil em 2015, após passar pela Venezuela. Hoje no ramo de passagens aéreas, ele reflete o orgulho dos compatriotas: "Em 2022, 90% dos haitianos apoiaram o Brasil. Agora que o Haiti classificou, todo mundo vai apoiar o Haiti, porque é nossa nação, nossa bandeira".
Apoio voluntário e integração
A trajetória de Fran se cruza com a da empresária brasileira Daphany Magalhães Júlio, que o conheceu em situação de rua. Há 10 anos, atuam voluntariamente para ajudar imigrantes haitianos em Roraima. Daphany articula acesso a serviços básicos, enquanto Fran atua como intérprete.
"Eles são muito apaixonados pelo futebol. O Haiti entra numa loucura quando o Brasil entra na Copa. 90% dos haitianos no país torcem pelo nosso Brasil", relata Daphany.
Fluxo migratório e contexto
Segundo o DataMigra, há 361 haitianos com residência ativa em Roraima. Desde 2013, o estado registrou 32.881 entradas de cidadãos do Haiti, com pico entre 2019 e 2020. O Haiti enfrenta crise humanitária desde o terremoto de 2010, agravada por crise política e violência de gangues.
Para Daphany, o momento do futebol é a celebração de uma vitória coletiva: "Nesses 10 anos de luta com eles, ter o privilégio de assistir a um jogo torcendo pelo Brasil foi incrível. Tá uma loucura, todo mundo feliz".
O Haiti está no Grupo C com o Brasil na Copa de 2026, realizada em Estados Unidos, México e Canadá, com 48 seleções. O Brasil busca o hexa, enquanto o Haiti tenta avançar pela primeira vez à fase eliminatória.



