Um estilo de arbitragem mais tolerante, que permite aos árbitros priorizar o andamento da partida em detrimento de contatos menores, surgiu como uma das características marcantes da Copa do Mundo de 2026, à medida que o torneio entra na fase eliminatória. Os árbitros têm sido incentivados a evitar marcar faltas insignificantes, o que ajuda a reduzir as interrupções e aumentar o tempo de jogo em um torneio já marcado por partidas com muitos gols e intensidade implacável.
Abordagem resulta em jogo mais rápido e intenso
Especialistas em ciência de dados, preparação física e arbitragem afirmam que essa abordagem, combinada com o surgimento de jogadores mais fortes e velozes, resultou em uma Copa do Mundo mais rápida e fisicamente mais exigente do que nunca. As mudanças foram amplamente bem-vindas, mas especialistas alertam que jogadores que não estejam em plena forma — especialmente aqueles que estão retornando de lesões que afetam movimentos explosivos, como corridas de velocidade e aceleração — podem ter dificuldade para lidar com as exigências do torneio.
“Analisando os dados das últimas três Copas do Mundo, a distância percorrida pelos atletas é semelhante, mas há muito mais corrida em alta velocidade, muito mais sprints”, disse Chris West, preparador físico de futebol da Universidade de Connecticut. A maioria das equipes agora pressiona os adversários não apenas para interromper a construção de jogadas, mas também para recuperar a posse de bola, disse West. Como resultado, a corrida em alta velocidade que os jogadores fazem no ataque continua quando perdem a posse de bola, pois buscam recuperá-la o mais rápido possível. “Tornou-se um jogo de alta intensidade”, afirmou.
Arbitragem mais branda e menos faltas
A intensidade implacável do jogo também tem sido favorecida por uma abordagem mais branda dos árbitros. “Há muitas entradas que os árbitros simplesmente não marcam. Vale tudo”, disse o comentarista de TV brasileiro Ledio Carmona durante a partida da fase de grupos entre Uruguai e Espanha, elogiando a disposição do árbitro em deixar o jogo fluir, apesar do caráter físico da disputa.
A Fifa, entidade que rege o futebol mundial, queria menos interrupções nas partidas, de acordo com comentários de seu diretor de arbitragem, Pierluigi Collina. O objetivo é que o jogo tenha um melhor ritmo. É também por isso que foram introduzidas novas regras para o torneio deste ano.
Uma análise da NetSI Sport, centro de pesquisa especializado em dados e esporte administrado pela Northeastern University, mostrou que o número de faltas por partida neste ano caiu para 24,3, ante 27,7 em 2022 e 29,3 em 2018. O número de cartões amarelos também diminuiu, mas houve um aumento nos cartões vermelhos.
A análise da NetSI Sport mostrou que a fase de grupos deste ano foi a de maior média de gols da era moderna, com 2,95 gols por partida, superando o recorde anterior da Copa do Mundo do Brasil em 2014, de 2,83 por partida. “Os melhores árbitros sabem quando intervir, permitindo que as estrelas brilhem”, disse Mark Clattenburg, analista de regras da Fox TV e ex-árbitro da Premier League inglesa. “O jogo está sendo disputado de maneira melhor, o jogo tem fluído melhor”, afirmou durante o confronto entre Alemanha e Costa do Marfim.
Limites físicos e riscos de lesões
O jogo mais rápido e físico também está testando os limites dos jogadores. West disse que os músculos posteriores da coxa e as panturrilhas estão entre os grupos musculares mais expostos à intensidade atual, com os riscos aumentando drasticamente para jogadores que não estão em plena forma. Neymar está entre as estrelas da Copa do Mundo que lidam com uma lesão na panturrilha. Ao contrário do argentino Lionel Messi ou do francês Kylian Mbappé, o atacante brasileiro ainda luta para recuperar a forma e deixar sua marca no torneio.
O Brasil também está preocupado com Raphinha, que sofreu uma lesão na coxa durante a partida da fase de grupos contra o Haiti. A Confederação Brasileira de Futebol se recusou a comentar sobre a condição de qualquer um dos jogadores ou se as partidas de alta intensidade deste ano estariam aumentando os riscos de lesões. Outros jogadores importantes enfrentaram problemas semelhantes, com o meia-atacante norte-americano Christian Pulisic se recuperando de uma lesão na panturrilha e o inglês Reece James ainda lidando com um problema na coxa.



