Há exatos 40 anos, Diego Maradona eternizou-se no imaginário do futebol mundial ao marcar dois dos gols mais emblemáticos da história em uma única partida: a vitória da Argentina sobre a Inglaterra por 2 a 1, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no Estádio Azteca, no México. O primeiro, conhecido como a 'mão de Deus', foi um gol polêmico com a mão esquerda; o segundo, eleito o 'gol do século' pela FIFA, foi uma arrancada de 60 metros, driblando cinco jogadores ingleses.
O contexto histórico e a Guerra das Malvinas
O confronto entre Argentina e Inglaterra carregava um peso político e emocional enorme. Apenas quatro anos antes, os dois países haviam se enfrentado na Guerra das Malvinas (1982), conflito que terminou com a rendição argentina e a morte de 649 soldados argentinos. Para muitos argentinos, a partida de 1986 representou uma chance de vingança simbólica. O jornalista argentino Andrés Burgo, autor de livros sobre Maradona, investigou a origem da expressão 'mão de Deus'. Segundo Burgo, o próprio Maradona declarou após o jogo: 'Foi um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus'. A frase ecoou como uma justificativa divina para o gol ilegal, mas também como uma resposta à humilhação da guerra.
O gol do século e a reação mundial
O segundo gol, marcado aos 10 minutos do segundo tempo, é considerado uma obra-prima do futebol. Maradona recebeu a bola no campo defensivo, driblou Peter Beardsley, Peter Reid, Terry Butcher, Terry Fenwick e o goleiro Peter Shilton, antes de empurrar para o gol vazio. O locutor argentino Víctor Hugo Morales imortalizou a jogada com seu famoso grito: 'Maradona, Maradona, Maradona...'. Estatísticas da FIFA mostram que o gol percorreu 60 metros em 11 segundos, com 44 toques na bola. A partida foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, segundo estimativas da época.
O legado de Maradona e a memória dos gols
Os dois gols transformaram Maradona em herói nacional e lenda do esporte. A 'mão de Deus' gerou debates éticos sobre fair play, enquanto o 'gol do século' é exibido até hoje como exemplo de genialidade. Em 2002, a FIFA realizou uma votação online para eleger o gol mais bonito da história das Copas, e o de Maradona venceu com 18% dos votos. Andrés Burgo, em sua pesquisa, destaca que a frase 'mão de Deus' foi uma invenção de Maradona para minimizar a controvérsia, mas que os argentinos a abraçaram como parte da lenda. 'Para muitos, aquele jogo foi uma catarse coletiva, uma forma de superar a dor das Malvinas', afirma Burgo.
40 anos depois: mitos e verdades
Passadas quatro décadas, a história da partida continua cercada de mitos. Alguns afirmam que a rainha Elizabeth II teria dito que 'a mão de Deus foi a mão do diabo', mas não há registros oficiais. Outros dizem que Maradona teria pedido desculpas pelo gol de mão, mas ele próprio nunca o fez publicamente. O que é fato é que a partida de 1986 marcou o auge da carreira de Maradona, que morreria em 2020. O jogo é lembrado não apenas pelos gols, mas pelo simbolismo de um país que, através do futebol, encontrou uma forma de revanche e orgulho.



