O presidente da Fifa, Gianni Infantino, teve de recuar no projeto de criar uma empresa para vender participações em ativos comerciais da entidade. A iniciativa, que já era discutida internamente, encontrou forte resistência de confederações como a Uefa e a Concacaf, que enxergavam riscos de ingerência privada na organização da Copa do Mundo. A pressão foi tamanha que o plano foi engavetado, mas o assunto ainda rende reações entre grandes nomes do futebol.
Gianluigi Buffon, campeão mundial pela Itália em 2006, foi um dos que se manifestaram. Em entrevista ao jornal italiano Gazzetta dello Sport, o ex-goleiro disse ter ficado assustado com a proposta. "A Copa do Mundo foi ótima, mas não consegui tolerar certas coisas. No entanto, trazer investimento privado para a Copa do Mundo me assusta", afirmou. "Se certas linhas forem cruzadas, decisões firmes serão necessárias; só assim o mundo poderá ser um lugar melhor."
Buffon também se referiu ao contexto de ameaça de boicote da Uefa às competições da Fifa. Ele lembrou do caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que teve o visto negado pelos Estados Unidos e não pôde apitar no Mundial. "Assim como não fizeram quando o pobre árbitro somali foi mandado para casa sem que ninguém dissesse uma palavra", disse. A declaração reforçou a insatisfação de uma das vozes mais respeitadas do futebol italiano.
O ex-goleiro, que até o início do ano era chefe de delegação da seleção italiana — cargo do qual saiu após o fracasso na classificação para a Copa dos Estados Unidos, México e Canadá —, contou ainda que se "impressionou" com Infantino, então candidato à presidência da Fifa e a quem diz conhecer. A relação, no entanto, parece ter se desgastado.
Itália mira a Copa de 2030
Durante a entrevista, o principal assunto foi o momento da seleção italiana, fora das últimas três edições da Copa do Mundo. Na visão de Buffon, o objetivo principal do time deve ser conseguir a classificação para o Mundial de 2030. "Agora temos que voltar atrás e torcer para reencontrar o ímpeto que nos levou ao Campeonato Europeu", declarou, lembrando a conquista da Eurocopa em 2021.
Buffon, que pela primeira vez na carreira vai se permitir dedicar mais tempo à família, não aceitou retornar à seleção. A Azzurra também passou por outras baixas: Paolo Maldini e Leonardo deixaram seus cargos, pois queriam um novo treinador para o projeto italiano e haviam escolhido Andrea Pirlo. Agora, Roberto Mancini assume como técnico, com Claudio Ranieri como diretor técnico.
O ex-goleiro também comentou a especulação de que Pep Guardiola poderia assumir a seleção. "Ele é o maior dos últimos trinta anos, mas treinou clubes. A seleção nacional é outra história", afirmou. Para Buffon, ainda que um treinador renomado fosse contratado, o problema da Itália poderia não ter sido resolvido.
Futebol italiano em transição
Buffon também fez uma análise contundente sobre o trabalho na seleção. Para ele, "ninguém se importa" com o que é feito, apenas com os resultados. "Eles não sabem como é difícil fazer com que os jovens jogadores joguem. Antigamente, isso talvez fosse compreensível; hoje, é inaceitável", desabafou.
O ex-goleiro destacou a mudança no cenário do futebol italiano. "Porque éramos a liga de referência e tínhamos campeões. Hoje, talvez estejamos em quinto lugar na Europa, mas existe a pressão habitual, treinadores que lutam por um lugar todos os domingos, torcedores implacáveis: somos uma liga de transição, os grandes clubes enviam seus jogadores para cá para se desenvolverem e, apesar disso, não há espaço para os nossos jovens jogadores", completou.
Na conclusão, Buffon afirmou que "apenas fingimos não entender que o futebol mudou completamente nos últimos vinte anos". A declaração reforça sua visão de que a Itália precisa se adaptar à nova realidade do esporte.



