Quase Inverno: um Chekov à brasileira com rigor estético
Quase Inverno: Chekov à brasileira com rigor estético

CURITIBA - Com Quase Inverno, Rodrigo Grota faz um Tchekhov à brasileira. Mas também apela a pelo menos outras duas fontes de inspiração, além da do escritor russo: o teatro de Antunes Filho e o cinema de Ingmar Bergman. As três irmãs, de que fala o título de uma das obras mais famosas de Tchekhov, são interpretadas por Ondina Clais, Simone Iliescu e Luiza Quinteiro. As três se reúnem na fazenda da família pois a mãe (Esther Góes) encontra-se à morte. Ao ambiente rural, soma-se o quadro histórico - Brasil dos anos 1970, ditadura militar. Em torno desse quadro, desenvolve-se a trama feminina, em contexto masculino e masculinista, de violência latente, que depois se torna explícita.

Beleza fotográfica e direção de arte

O filme é de uma beleza fotográfica digna de nota (Anderson Craveiro) que, junto à direção de arte (Oswaldo Eduardo Lioi), criam um ambiente tchekhoviano de boa inspiração. Junta-se ao texto (Roberta Takamatsu e Rodrigo Grota), que procura ser mais alusivo que explícito, dizer mais nas entrelinhas que nas linhas, espírito, aliás, da própria obra do russo.

Consistência formal e recepção crítica

Do naturalismo ao não naturalismo, indo do claro ao mais escuro, o filme, formalmente, parece bastante consistente. No entanto, não agradou tanto à crítica presente ao Olhar de Cinema. E por quê? Talvez porque seja muito bem-feito, bem-feito demais e, assim, pareça "acadêmico", "careta" ou coisa do tipo. Não tem imagens fora de foco, desequilíbrio de eixo, desleixo fotográfico, palavreado grosseiro, etc. Portanto, em nada se parece ao "cinema de invenção" que se consagrou como paradigma artístico entre setores da crítica.

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Frieza emocional como preço estético

Mesmo evitando-se preconceitos, pode-se fazer restrições a Quase Inverno. Talvez a maior de todas: mesmo buscando equilíbrio estético, o filme parece às vezes um tanto frio. A emoção precisa ser descoberta sob camadas de contenção. Mas talvez essa contenção, às vezes excessiva, seja o preço a pagar pela inspiração em Tchekhov, esse mestre do understatement, do alusivo em lugar do explícito, do calor antes represado que exibicionista. Mesmo a reconciliação final aparece em tom menor. Discreto. Não combina muito com o nosso temperamento médio.

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