Fiz um Foguete: filme cearense surpreende no Olhar de Cinema
Fiz um Foguete: filme cearense surpreende no Olhar de Cinema

Uma feliz surpresa com o último concorrente brasileiro - Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques. Bem, "surpresa" pode ser uma palavra exagerada, pois o filme já vinha produzindo ruído (positivo) desde sua estreia no Festival de Berlim. Chega ao Brasil confirmando seu poder de impacto e já como candidato aos prêmios que serão conhecidos na tarde deste sábado.

Uma história de memórias e estradas

Uma mulher submete-se a uma ressonância magnética e a médica recomenda que pense numa recordação feliz para atenuar a sensação desagradável dentro da máquina. É a pista para um fluxo de pensamento que conduz Rosa (Verônica Cavalcanti) ao relacionamento com sua mãe, Dalva (Luciana Souza). A trama leva ao que alguns já estão chamando de "road movie feminista", com a dupla, mãe e filha, pondo o pé na estrada a bordo de um veículo que, já em si, é engraçado. Um velho carro adaptado para a venda de sanduíches de salsicha, e que vai se desfazendo pelo caminho. A viagem prosseguirá de qualquer jeito, numa carroça, a pé pelas dunas, a bordo de um caminhão, etc.

Humor, ternura e drama

Há muito humor pelas estradas da vida, mas também ternura e sororidade que conseguem, sem qualquer bom mocismo, talvez cicatrizar alguns traumas do passado. Talvez, porque nem tudo são flores e bons sentimentos neste filme de trajetórias acidentadas como estradas esburacadas e um desfecho incerto e aberto. Se há humor, como não poderia carecer a um filme cearense, também não falta drama. Delitos, temporadas na prisão, ressentimentos familiares, etc. Tudo brotando, de maneira fragmentada. Tem ritmo.

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Registros inesperados

E flui em algumas inesperadas trocas de registro, do naturalismo ao fantástico, sem meios termos, mas nada parecendo brusco, ou forçado. O espectador é levado pela mão a esse modo de estranhamento, que persiste até o desfecho. São módulos de uma linguagem que parece sempre à procura de inovação e surpresas para o espectador.

Atuações brilhantes

Em meio a essa estrutura muito bem montada, destaque-se também o trabalho das duas protagonistas, Luciana Souza e Verônica Cavalcanti, como mãe e filha. Ambas intensas, sem forçarem a barra, jamais explícitas em excesso, nunca omissas em seus papéis. Curioso que Luciana, expoente em um trabalho anterior, Quando eu me Encontrar, parecia destinada a personagens de mater dolorosa, mães sofridas. Aqui, ao contrário, faz uma mãe debochada, transgressiva, que habita a memória da filha em lembranças contraditórias.

Um dos melhores da edição

Enfim, criativo já a partir do título, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, desponta como um dos melhores filmes vistos nessa bela 15ª edição do Olhar de Cinema. Que nesta parábola feminista os homens não valham nada, já era esperado. É um cacoete obrigatório da época.

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