Com um macacão de renda e um sobretudo de veludo azul, Urias subiu ao Palco Aquarela do João Rock 2026 na tarde deste sábado (1º) e transformou a estreia no festival em uma experiência que uniu experimentação musical, performance política, moda e representatividade LGBTQIA+. A apresentação atraiu uma plateia lotada em Ribeirão Preto (SP), que acompanhou um repertório centrado em "CARRANCA", o trabalho mais recente da cantora.
Urias foi a primeira atração a se apresentar no palco, abrindo a programação no espaço criado em 2023 para ampliar a diversidade artística do evento. A escolha da artista para a abertura não foi aleatória: sua música transita por gêneros e aborda questões sociais com profundidade, preparando o terreno para um dia de apresentações marcantes.
A única concessão ao passado veio logo no início, quando Urias apresentou uma versão de "Se Eu Quiser Falar com Deus", de Gilberto Gil. Em seguida, mergulhou de cabeça no universo do novo disco, alternando sonoridades e letras que falam de identidade, ancestralidade, resistência e das experiências de pessoas negras e trans.
Novo álbum e a busca por um som inédito
Lançado em 7 de outubro de 2025, "CARRANCA" reúne 14 faixas e marca uma virada estética e musical na trajetória de Urias. Segundo a artista, o objetivo era criar um som que ainda não existia, misturando referências da música brasileira com rap, R&B, eletrônica e outras experimentações. No palco, canções como "Vela Preta", "Pérolas aos Porcos" e "Voz do Brasil" ganharam novos contornos, com arranjos que dialogavam com a energia de um festival.
"Voz do Brasil", parceria com Major RD, é um dos momentos mais políticos do show. A faixa utiliza elementos da abertura do programa radiofônico homônimo para fazer uma crítica às imagens, contradições e desigualdades do país. A parceria com o rapper é uma das várias colaborações do álbum, que também conta com Criolo, Don L e Giovani Cidreira.
A direção criativa de "CARRANCA" foi assinada por Ode e aposta em uma estética afro-surrealista, com referências a figuras históricas, espiritualidade e divindades de matrizes africanas. Esse conceito se materializou na construção visual do espetáculo, que transformou o show em uma verdadeira experiência imersiva, reforçada pela presença de bailarinas e por mudanças de figurino pensadas para contar uma história.
Figurino e performance: o corpo como mensagem
Urias começou a apresentação com um macacão azul e um sobretudo de veludo, mas o figurino não parou por aí. No meio do show, ela surgiu com um vestido branco e, no encerramento, apareceu com um vestido vermelho carnavalesco e uma faixa presidencial atravessada sobre o corpo. O recurso visual reforçou o tom político de uma apresentação que discutiu poder, pertencimento e a ocupação de espaços de protagonismo por pessoas historicamente excluídas.
A plateia respondeu com entusiasmo a cada mudança de visual, consolidando a estreia de Urias como um dos momentos mais comentados do festival. A performance não foi apenas um show, mas uma declaração de existência e resistência em um dos maiores palcos do país. As coreografias da banda e das bailarinas complementavam as letras, criando um espetáculo que ia além da música.
Representatividade LGBTQIA+ no Palco Aquarela
Mulher trans, Urias levou ao João Rock uma apresentação em que identidade e produção artística caminharam juntas. A artista já afirmou publicamente que reconhece a importância de representar outras mulheres trans e travestis, mas também defende que a presença desses corpos na música e nos espaços públicos seja algo naturalizado.
A estreia aconteceu justamente no Palco Aquarela, criado em 2023 para ampliar a diversidade artística do João Rock. O espaço reúne mulheres de diferentes estilos, trajetórias e gerações da música brasileira, e a escolha de Urias para abrir a programação deste sábado foi vista como um marco para a comunidade LGBTQIA+. Ver uma mulher trans no topo do cartaz de um festival de grande porte é um sinal de mudança em um cenário musical historicamente marcado pela exclusão.
Com uma apresentação que equilibrou técnica, afeto e provocação, Urias confirmou seu lugar como uma das vozes mais importantes da nova música brasileira. O público que lotou o Aquarela saiu com a certeza de ter presenciado um momento histórico do festival, em que a música pop e a militância andaram de mãos dadas.



