Renan Quinalha: literatura LGBT como ferramenta de autoconhecimento
Renan Quinalha: literatura LGBT e autoconhecimento

Para entender a própria sexualidade, Renan Quinalha apelou à literatura. Entrou na antiga Livraria Cultura, em São Paulo, no final dos anos 2000 e procurou alguma obra sobre a temática LGBT. “Aí eu encontrei um único livro com ‘gay’ no título: Reflexões sobre a questão gay, do francês Didier Eribon”, relembra o agora professor universitário e advogado.

Hoje, aos 40 anos, Quinalha é pesquisador e escritor com foco em diversidade e inclusão. Escreveu obras como Contra a moral e os bons costumes: A ditadura e a repressão à comunidade LGBT (2021) e Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias (2022).

Da vergonha ao orgulho: a evolução do acesso à literatura LGBT

“Naquela época, eu comprei até com vergonha o livro do Eribon. Hoje, você tem uma série de livros, trabalhos, seções específicas sobre a questão LGBT”, ele avalia. “Mas me incomoda esse tipo de etiqueta, de rótulo, que parece que só nomeia o que não é o universal, o que é o ‘outro’, o que é supostamente particular.”

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Para Quinalha, a literatura LGBT não pode ser reduzida a um nicho. “No fundo, toda literatura tem várias marcações. Não dá para reduzir a literatura LGBT, porque ela trata de vários outros sentimentos, questões, conflitos, narrativas, histórias, que são humanas, no fundo.”

Dez obras essenciais na estante de Renan Quinalha

Além de Eribon, ele destaca a importância de nomes nacionais como João Silvério Trevisan, autor de Devassos no paraíso. “É uma bíblia sobre a história LGBT brasileira”, define Quinalha. Confira a seguir dez obras destacadas pelo advogado ao longo do tour por suas estantes:

‘Amora’, de Natalia Borges Polesso — “É um baita livro de contos, que eu considero um ponto de virada na literatura LGBT ficcional no Brasil. Muitas vezes a gente acaba segmentando a experiência das pessoas LGBTs, e aqui a Natália mostra as várias possibilidades de ser lésbica, sem se reduzir a algo identitário, esse termo que tem sido dito de modo pejorativo. Ela mostra uma literatura das mais universais possíveis, sobre relacionamentos, ciúmes, afeto, paixão, família, amizade.”

‘Mau hábito’, de Alana Portero — “Esse livro aqui é uma das melhores coisas que eu li no ano passado. É um romance de formação, com uma dimensão também autobiográfica da Alana, que é uma escritora espanhola, com alguns episódios de violência e de descoberta. Eu gosto muito dela. Tem uma escrita bem ácida.”

‘Devassos no paraíso’, de João Silvério Trevisan — “É uma Bíblia sobre a história LGBT brasileira. Um livro bastante grande, que narra uma história da nossa cultura, da identidade, da prática homossexual desde a colônia até hoje. Gosto muito também de um outro livro dele chamado Seis balas num buraco só: a crise do masculino.”

‘Tese para uma domesticação’, de Camila Sosa Villada — “Eu adoro todos os livros da Camila. Ela também tem As Malditas, que saiu agora pela Companhia das Letras em nova edição, aqui no Brasil. E a Fósforo também lançou um outro livro bem interessante sobre a escrita e um ensaio dela sobre esse processo da expressão pela escrita (A viagem inútil: trans/escrita).”

‘Descolonizando os afetos’, de Geni Nuñez — “Ela é uma escritora indígena guarani que traz vários temas sobre gênero, sobre afeto. E esse faz a gente pensar sobre as relações amorosas um pouco ‘fora da caixa’. Um outro ótimo livro dela é Felizes por Enquanto, uma série de ensaios sobre o nosso lugar no mundo e como a gente questiona certas convenções e normas para viver de modo mais autêntico.”

‘Retorno a Reims’, de Didier Eribon — “Além do Reflexões sobre a questão gay, esse outro livro do Eribon foi muito importante para mim. É sobre a história dele voltando para casa da família depois da morte do pai. E isso não é nenhum spoiler, porque o livro começa assim mesmo. O pai morre e ele volta para entrar em contato com a origem de classe dele, depois de ter rompido com o pai, que era homofóbico, numa cidade pequena no interior da França.”

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‘Mudar: método’, de Édouard Louis — “É um escritor que segue a linha do Eribon, sobre suas próprias memórias como um jovem gay. E se tornou um best-seller, porque tem uma linguagem mais acessível, livros menores, um texto de mais fácil de compreensão, menos sociológico, apesar de também ter a sua densidade.”

‘Beth Carvalho: uma vida pelo samba’, de Rodrigo Faour — “Eu amo samba, MPB e gosto de ler biografias. Quando tenho tempo para além dos livros mais teóricos e de ficção, esse é o tipo de livro que eu gosto de ler. O Faour é um jornalista carioca que já escreveu sobre a vida de diversos artistas e é autor de História sexual da MPB.”

‘O que amar quer dizer’, de Mathieu Lindon — “Lindon é um escritor francês que conviveu muito proximamente com Hervé Guibert e Michel Foucault, dois autores franceses que morreram em decorrência da aids. Este livro é um diário dessa amizade tripla, da homossexualidade que todos eles compartilhavam, das aventuras, tudo o que eles viveram na França dos anos 1970 e comecinho dos anos 1980.”

‘A casa da vovó’, de Marcelo Godoy — “Antes de trabalhar gênero e sexualidade, eu pesquisava mais violência de Estado, especialmente no período da ditadura. Trabalhei na Comissão da Verdade durante três anos. E um dos livros mais importantes sobre este período é A Casa da Vovó, do Marcelo Godoy, colunista do Estadão. É uma radiografia incrível desse processo de repressão militar.”