O longa-metragem 'Malaika' (PB), dirigido por André Morais, propõe uma discussão sobre identidades a partir do caso particular de uma adolescente albina. A personagem-título enfrenta múltiplas fronteiras: é filha de mãe negra, transita entre a infância e a vida adulta, e sua sexualidade se apresenta indefinida. O filme se insere em um contexto onde a discussão identitária tornou-se tema central, levantando perguntas como 'a quem pertenço, de onde vim, quem sou, qual meu sexo, qual meu grupo?' — questões que, segundo a obra, todos deveriam enfrentar na construção da personalidade.
A trama e suas camadas sociais
Além das questões identitárias, 'Malaika' aborda um conflito de classe quando a mãe da protagonista, empregada doméstica, precisa lidar com a humilhação em uma festa de patrões ricos na casa onde trabalha. A educação da filha é vista como o principal capital para o futuro, e a situação pode gerar uma ruptura significativa. O filme é bem filmado, destacando os preconceitos sofridos por pessoas 'diferentes', como os albinos.
Inspiração e atuação
O diretor André Morais revelou que a ideia para o filme surgiu ao visitar uma exposição de fotografias de pessoas albinas, que evidenciava a invisibilidade a que são submetidas. Em seguida, encontrou em Vitória Bianco a atriz ideal para o papel, destacando sua expressão forte, silêncio e olhar melancólico. A atuação de Bianco é elogiada como muito boa.
Construção cinematográfica
O filme é bem construído, alternando closes e planos gerais em uma filmagem límpida e detalhista. A trajetória de Malaika — da discriminação na escola à prepotência dos patrões da mãe — é bem ajustada. No entanto, a obra aborda tantos temas que pode gerar uma impressão de superficialidade no desenvolvimento de cada um. Apesar disso, a beleza do filme e a empatia despertada pela personagem são inegáveis, com destaque para um momento de pura emoção quando Malaika observa um titereteiro talentoso.
Desfecho e outros curtas
A saída do realismo e o uso do fantástico conferem ao desfecho um ar de mistério bem-vindo. Na mesma programação, outros curtas foram exibidos: 'Mercado Central' (MA), de Tássia Dhur, que explora o mistério de um mercado municipal demolido onde pessoas desaparecem, com teor gore e naturalismo extremo; 'Assalto' (ES), de PH Martins, sobre irmãos que se associam para assaltar uma casa com um cofre, atrapalhados pela chegada de policiais; e 'A Tragédia do Lobo-Guará', de Kimberly Palermo, animação com bonecos que narra a saga de um lobo-guará em busca de nova moradia, usando ironia e distanciamento crítico.



