Djavan estreia no Rio a turnê comemorativa dos 50 anos
Djavan estreia no Rio turnê comemorativa dos 50 anos

Foi com um sonoro “Voltei, Rio!” que Djavan abriu a noite de sábado, 1º de agosto de 2026, na Farmasi Arena. A saudação à cidade veio acompanhada de um improviso a capella dos versos iniciais de “Delírio dos mortais” (2007), samba composto em exaltação ao Rio de Janeiro. O gesto de afeto antecipou o clima da estreia carioca da turnê “Djavanear 50 anos – Só sucessos”, que desde maio percorre cidades brasileiras e desembarcou na capital fluminense com quase 30 músicas em duas horas e meia de espetáculo.

O artista, nascido em Maceió e radicado no Rio desde 1972, não escondeu a emoção ao falar da relação com a cidade. “Essa cidade me deu à luz e fez de mim o que sou hoje. Aprendi tudo no Rio de Janeiro”, resumiu Djavan antes de cantar “Boa noite” (1992), tema de batida funkeada que foi mais um aceno ao público. A atmosfera era de celebração: pista, cadeiras e camarotes completamente ocupados. O momento marca os 50 anos de uma carreira impulsionada em 1975, com a defesa de “Fato consumado” em festival da TV Globo, e consolidada no ano seguinte com o lançamento do álbum “A voz • O violão • A música de Djavan” (1976).

Um mergulho em meio século de sucessos

O roteiro, aberto com “Sina” (1982) em versão de sotaque africano, funcionou como um mosaico da produção do compositor. Djavan dividiu o palco com uma big banda formada por Felipe Alves, Jessé Sadoc, Marcelo Mariano, Marcelo Martins, Paulo Calasans, Rafael Rocha, Renato Fonseca e Torcuato Mariano, além das vocalistas Clara Carolina e Jenni Rocha. A cenografia de Gringo Cardia, que preencheu o painel de LED com grafismos, pinturas e fotografias de artistas visuais, deu o tom visual à celebração.

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No repertório, momentos como “Cigano” (1989) ganharam roupagem jazzy, enquanto “Miragem” (1984), “Me leve” (1987) e “Mal de mim” (1989) mostraram a personalidade de Djavan ao inserir lados B na grade de hits. O coro do público se fez presente em petardos como “Samurai” (1982) e “Se...” (1992). Destaques também para “Linha do Equador” (1992), dividida com Caetano Veloso, e “Seduzir” (1981), que apresentou uma nova divisão sem perder a essência. O cantor manteve o pique durante toda a apresentação, alternando canções radiofônicas com passagens menos óbvias.

Autoria e raridades no centro do roteiro

Djavan bancou um repertório inteiramente autoral, composto por 28 músicas, das quais 25 foram escritas apenas por ele. As exceções são a já citada “Linha do Equador”, parceria com Caetano Veloso, “Lambada de serpente” (1980), feita com o poeta Cacaso, e “O vento” (1987), letrada em parceria com Ronaldo Bastos. A canção “O vento”, inclusive, foi soprada de forma linda e melancólica no show, com Djavan lembrando que ela se tornou famosa na voz de Gal Costa antes de ganhar seu registro autoral em “Improviso” (2024).

“Lambada de serpente” rendeu um dos grandes momentos do bloco de voz e violão, com direito à menção nominal a Cacaso (1944-1987), um dos maiores letristas da MPB. A sequência acústica, que também incluiu “Meu bem querer” (1980) e “Oceano” (1989), provocou efeito catártico na plateia, provando que a obra de Djavan dispensa parafernálias para emocionar. Djavan, ourives das harmonias, sabe o quilate do que construiu e por isso bancou essa seleção com segurança.

Homenagens a Gal Costa e David Sanborn

Gal Costa foi lembrada com reverência. Djavan citou a cantora que gravou 13 de suas composições entre 1981 e 2019 e fez questão de saudá-la: “Gal é uma lembrança comovente. Gal foi a maior intérprete que eu já tive”. O tributo passou por “Açaí” (1981) e “Azul” (1982), além da já mencionada “O vento”. A plateia respondeu com palmas e emoção visível.

Outra homenagem foi a David Sanborn (1945-2024), saxofonista norte-americano que participou da gravação de “Quase de manhã” (1986). A canção, nunca regravada por Djavan e até então inédita ao vivo, foi a grande surpresa da noite. Em arranjo jazzístico, o sax de Marcelo Martins executou ao vivo o solo originalmente tocado por Sanborn no álbum “Meu lado” (1986), criando um dos momentos mais emblemáticos do espetáculo.

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Final apoteótico

Após o medley de sambas que passeou por “Serrado” (1978), “Fato consumado” (1975) e “Flor de lis” (1976), Djavan confirmou por enésima vez sua habilidade de compor canções de arquitetura refinada e apelo popular irresistível. “Pétala” (1982) desabrochou no palco e levou o público ao delírio. O encerramento veio com “Lilás” (1984), seguida do bis com “Um amor puro” (1999) e uma versão festiva de “Sina”.

No fim, a ausência de clássicos como “Faltando um pedaço” (1981), “Esquinas” (1984) e “Asa” (1986) passou quase despercebida. A noite provou que o título “Djavanear 50 anos – Só sucessos” não era promessa: era um compromisso cumprido à altura de um gigante da MPB.