Ignácio de Loyola Brandão, escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, completou 90 anos no último sábado, e a jornalista Leticia Gullo, que foi estagiária e depois editora da Vogue sob seu comando, e que também é casada com o filho dele, decidiu compartilhar uma perspectiva única sobre o homem por trás do mito. Em um relato emocionante, ela revela como Loyola, como é conhecido profissionalmente, foi simultaneamente seu chefe e sogro, e como essa dupla relação moldou sua carreira e vida pessoal.
Uma história de dois lados
Gullo, que hoje é escritora e tem três livros publicados, um deles finalista do Prêmio Jabuti, conta que a ideia de escrever sobre Loyola surgiu da necessidade de mostrar um lado mais pessoal do homenageado, que recebeu homenagens de Djamila Ribeiro e Leandro Karnal. "Modéstia à parte, resolvi escrever a minha também", brinca a jornalista, referindo-se à página inteira dedicada a Loyola nos jornais.
A história começa em 1995, quando Gullo, então com 23 anos e recém-formada em jornalismo, decidiu enviar currículos para revistas femininas, mesmo sem experiência em redação. "Eu cursava o último ano e tinha me dado conta de que nunca tinha entrado numa redação", relembra. Para sua surpresa, foi chamada para uma entrevista na Vogue, que na época era dirigida por Ignácio de Loyola Brandão. "Ele deve ter simpatizado com a minha foto ou talvez a maneira como eu tenha escrito a coisa toda e me chamou", especula.
O chefe Loyola
Na redação da Vogue, Loyola era descrito por Gullo como um diretor de redação com "ar de quem ocupava a cadeira de casa". "Sempre lendo e rabiscando algum texto que era deixado impresso sob sua mesa", recorda. Ela destaca um gesto característico: "Quando precisava falar com alguém, lembro do gesto que se repete até hoje de tirar os óculos e manter uma das hastes entre os lábios enquanto escutava. Loyola era bom ouvinte. Sempre foi."
Gullo começou como estagiária, sem mesa fixa, mas aceitava "absolutamente tudo" que lhe pediam. A redação era pequena, mas repleta de grandes nomes do jornalismo, como Sergio Ribas, Patrícia Carta, Clarissa Schneider, Eva Jory e Eduardo Logullo. "Eu era praticamente uma mosca, mas aceitava tudo", admite.
O encontro de dois mundos
Paralelamente, Gullo começou a namorar Daniel, filho de Loyola. A coincidência só foi descoberta quando Daniel viu o currículo dela em cima da mesa do pai. "Pai, o que esse currículo tá fazendo aqui? Ah! É uma estagiária nova lá da Vogue. Era eu." A partir daí, Gullo passou a ocupar uma posição dupla na vida de Loyola: estagiária e namorada do filho. "Trabalho e namoro iam bem, obrigada", comenta.
Com o tempo, Gullo foi promovida a editora de beleza e depois editora-chefe da Vogue, esta última contra a vontade inicial de Loyola, que a considerava "nova demais para o cargo". "De fato eu era, mas também só percebi isso anos depois", admite. No entanto, a carreira na revista teve um fim abrupto. "O duro foi que ele, Loyola, teve que me mandar embora depois. Sim, fui demitida da Vogue depois de quatro anos oficiais", revela. A demissão, segundo ela, foi difícil para ambos, especialmente porque já havia um vínculo familiar. "Nem o Loyola, nem o Ignácio são bons em falar coisas desagradáveis aos outros", explica.
O sogro Ignácio
Fora da redação, a relação com Ignácio se aprofundou. Gullo casou-se com Daniel e tiveram três filhos: Pedro, Lucas e Felipe. Mais tarde, nasceram Stella e Antônia, as netas mais novas. Ignácio criou o hábito de escrever cartas para os netos todo Natal, entregues em envelopes brancos compridos. "Uma delicadeza entre duas gerações aparentemente tão distantes, tão distintas. Será? Não acredito nessas marcas tão pequenas", reflete Gullo.
Em dezembro de 2022, Gullo deu a Ignácio um presente especial: seu primeiro livro, "Lugar de fazer morada", escrito em coautoria com a jornalista Juliana Pinheiro Mota. O livro reúne cartas trocadas durante a pandemia. Ignácio escreveu a quarta capa, algo que Gullo relutou em pedir por não querer "aproveitamento de imagem". Mas o texto está lá, assinado pelo dono da cadeira 11 na Academia Brasileira de Letras.
O bolo de abacaxi e a celebração dos 90 anos
Na festa de 90 anos, realizada no jardim da casa de Ignácio, não faltou o tradicional bolo de abacaxi da padaria CPL, que ele costumava ganhar em seus aniversários. "Bolo retangular com duas camadas de massa de pão de ló, recheio de creme de baunilha, pedaços de abacaxi e bordas de chantili", descreve Gullo. O bolo era tão amado que os netos repetiam e levavam sobras para casa. Na festa, o bolo de 90 anos, com inscrição em dourado, foi o que fez mais sucesso.
Gullo encerra o relato com uma reflexão sobre a convivência de quase três décadas. "Há 28 anos, Loyola corrigia meus textos, riscava palavras, fazia observações e sugestões. Hoje, Ignácio faz festa no jardim de casa", escreve. E conclui: "Viva ele. Viva a imaginação. Viva essa vida entre o bolo de abacaxi e as palavras escritas. E que honra imensa poder fazer parte de um pedacinho dessa história."



