Olhar 2026: notas sobre Mez da Grippe e outros filmes do festival
Olhar 2026: Mez da Grippe e outros filmes

O festival Olhar de Cinema trouxe à tona uma série de filmes instigantes, que misturam passado e presente, memória e crítica social. Entre eles, destaca-se O Mez da Grippe, longa-metragem de William Biagioli inspirado na obra homônima de Valêncio Xavier. O título remete à grafia dos anos 1910, época da Gripe Espanhola, que causou mortes e caos em Curitiba. O filme, exibido na seção Novos Olhares, incorpora o espírito fragmentário do livro, mesclando filmagens atuais e imagens de arquivo para compor um painel da vida urbana assolada por uma doença mortal. Fios sutis ligam o passado ao presente, evocando outras pandemias, como a Covid-19. A narrativa acompanha um professor contemporâneo que pesquisa a epidemia de 1918, duvidando constantemente de seu trabalho. O resultado é um filme sério, mas com humor como proposta estética de distanciamento.

Histórias de um Bom Vale

O documentário Histórias de um Bom Vale, do espanhol José Luis Guerin, registra o bairro de Vallbona, nos arredores de Barcelona. A região é banhada por um rio e cercada por uma ferrovia, e seus moradores, da classe trabalhadora, enfrentam restrições impostas pelo progresso: os banhos no rio estão proibidos, e o campo de futebol será realocado para obras de uma empreiteira. Guerin, que já havia realizado o excepcional Em Construção (2008), repete o procedimento de ouvir as camadas mais carentes da população, sem pieguice. O filme capta diálogos sensacionais entre trabalhadores, como um pedreiro galego e outro marroquino, que revelam grande sabedoria. A obra denuncia como os pobres veem suas pequenas posses e direitos cobiçados pelos ricos e pelos "empreendedores".

Um Calendário Incompleto

O documentário Um Calendário Incompleto, da iraniana Sanaz Sohrabi, parte da descoberta de um vinil de 1980 com canções típicas dos países produtores de petróleo da OPEP. O disco, gravado pelo coro da Universidade Central da Venezuela, celebrava o 20º aniversário da organização, com a utopia de ver o petróleo como ferramenta de desenvolvimento, alinhada ao pan-arabismo e à solidariedade dos anos 1960 e 1970. O filme evoca a figura de Mohammed Mossadegh, que nacionalizou o petróleo iraniano nos anos 1950 e foi derrubado por um golpe. O ideal pan-arabista se desfez com a vitória dos interesses imperialistas, que buscam petróleo a qualquer custo. O capítulo mais recente foi o sequestro de Nicolás Maduro. Um documentário político da melhor qualidade.

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A Noite e os Dias de Miguel Burnier

O brasileiro A Noite e os Dias de Miguel Burnier, de João Dumans, mergulha nas consequências da mineração. O filme, que custou três anos de trabalho, retrata a comunidade de Miguel Burnier, em Ouro Preto, e mostra a mudança de vida de um grupo de amigos com a chegada de uma mineradora, que deteriora o meio ambiente e as condições de vida. O trabalho observacional depende da confiança dos retratados, resultando em um filme contundente, sem arroubos retóricos, que expõe como Minas Gerais é vítima da própria riqueza do solo. Dumans, que em parceria com Affonso Uchôa fez Arábia, entrega mais um retrato do trabalho precário no Brasil.

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