A incorporação espiritual é um dos fenômenos mais conhecidos das religiões de Matriz Africana e do Espiritismo. Entretanto, ela não acontece da mesma maneira em todas as tradições, nem possui o mesmo significado. Ao contrário do que muitos imaginam, incorporar não significa simplesmente que um espírito "entra" no corpo de alguém. O que ocorre é uma profunda sintonia entre o mundo material e o espiritual, permitindo que essa força se manifeste por meio do médium ou do iniciado. Cada religião compreende esse fenômeno de acordo com seus próprios fundamentos.
O "virar no Òrìṣà (Orixá)" no Candomblé
No Candomblé, a manifestação do Orixá é conhecida como "virar no santo". Trata-se de um transe ligado à liturgia da religião. Tradicionalmente, essa manifestação está relacionada à iniciação. É durante esse processo que a pessoa estabelece um vínculo definitivo com o seu Orixá e aprende, ao longo dos anos, todos os fundamentos necessários para viver essa experiência com segurança, disciplina e profundo respeito ao sagrado. Na maioria das tradições étnicas do Candomblé brasileiro, conhecidas como Nações, quem se manifesta é a Divindade-Orixá ligada ao orí — a cabeça e o destino espiritual do iniciado. Entretanto, isso não impede que essa mesma pessoa possua o dom para outras manifestações espirituais.
É importante compreender que a iniciação no Candomblé não elimina a mediunidade ou o dom individual. Aqui no Brasil, muitos Babalorixás, Yalorixás e iniciados, além de viverem o transe ritual com seu Orixá, também incorporam Caboclos, Pretos-Velhos, Exus, Pombagiras, Boiadeiros, Marinheiros e outras entidades espirituais. Essa realidade difere da tradição predominante nos cultos aos Òrìṣàs na África, onde, em regra, o iniciado manifesta apenas o seu Òrìṣà. No Brasil, essa característica faz parte da história de inúmeros Terreiros e Axés tradicionais. Diversos sacerdotes consagrados, além da manifestação do seu Orixá, também davam passagem a entidades espirituais. Um dos exemplos mais emblemáticos foi Pai João da Goméia, iniciado para Oxóssi e Yansã, que também incorporava o Caboclo Pedra Preta.
Essas manifestações, porém, não se confundem nem interferem uma na outra. O Òrìṣà é uma Divindade da Natureza, força primordial da criação. Já Caboclos, Pretos-Velhos, Exus, Pombagiras e as demais entidades são espíritos em evolução, investidos de missões espirituais, que atuam em outra dimensão da existência. Cada um possui sua função, seu momento e seus próprios fundamentos, independentemente da tradição seguida por cada Terreiro. Há Terreiros em que essas manifestações acontecem em dias distintos; outros não trabalham com entidades espirituais; e há aqueles em que ambas convivem harmoniosamente. Todas essas formas existem e merecem respeito quando preservam seus fundamentos religiosos. Eu mesmo sou um exemplo dessa realidade. Sou iniciado para Oxalá, e é o Grande Orixá quem se manifesta em mim nos ritos específicos do Candomblé. Ao mesmo tempo, possuo o dom de incorporar as entidades Tranca-Ruas de Imbaré, o Caboclo Boiadeiro Navizala e Pai Joaquim d'Angola. Não existe qualquer contradição nisso, pois são manifestações completamente distintas, que atuam em momentos diferentes e com finalidades espirituais próprias.
A incorporação na Umbanda
Na Umbanda, a incorporação acontece principalmente com os Guias Espirituais. Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, Baianos, Boiadeiros, Marinheiros, Exus e Pombagiras são algumas das linhas que trabalham em benefício das pessoas que procuram auxílio espiritual. Por receber forte influência do Espiritismo kardecista, a Umbanda adotou o termo médium para designar aqueles que servem como intermediários entre o plano material e o espiritual. O desenvolvimento mediúnico ocorre de forma gradual, acompanhado pelos dirigentes do Terreiro, por meio dos rituais, das camarinhas, dos pontos cantados, das firmezas, das giras e dos ensinamentos recebidos ao longo da caminhada. Durante a incorporação podem ocorrer alterações na voz, na postura corporal, nos gestos e na forma de falar, características próprias de cada linha espiritual. Em muitos Terreiros de Umbanda também podem ocorrer manifestações dos Orixás. Entretanto, essas manifestações geralmente apresentam características diferentes do transe ritual vivido no Candomblé. Na Umbanda, o Orixá é compreendido, em grande parte das tradições, como uma irradiação divina, uma força da natureza que sustenta, inspira e envolve o médium, mais do que como uma manifestação litúrgica idêntica à realizada no Candomblé.
E no Espiritismo?
No Espiritismo, o fenômeno mediúnico manifesta-se principalmente por meio da psicofonia, da psicografia e de outras formas de comunicação entre os espíritos e os médiuns. Em geral, não há as expressivas alterações corporais observadas nas religiões de matriz africana. A comunicação ocorre predominantemente pela fala ou pela escrita, mantendo o médium consciente ou parcialmente consciente do processo.
Qualquer pessoa pode incorporar?
Nem todas as pessoas possuem mediunidade ostensiva. Mesmo aquelas que a possuem necessitam de orientação, estudo, disciplina e acompanhamento para desenvolvê-la de forma equilibrada e responsável. No Candomblé, a manifestação do Orixá está ligada aos fundamentos iniciáticos e à vida religiosa do iniciado. Já a mediunidade com entidades espirituais, quando existe, também precisa ser compreendida, acolhida e conduzida de acordo com os fundamentos de cada Terreiro. Na Umbanda, esse desenvolvimento acontece por meio do aprendizado mediúnico e da vivência religiosa no Terreiro. No Espiritismo, ocorre através do estudo, da educação mediúnica e da prática responsável da caridade. Embora cada tradição compreenda de forma diferente a natureza dos espíritos e das divindades, todas concordam em um princípio fundamental: a espiritualidade exige preparo, responsabilidade, ética e respeito.
Um compromisso espiritual
A verdadeira incorporação jamais deve ser transformada em espetáculo ou instrumento de vaidade. Seja na manifestação de um Orixá, de um Guia Espiritual ou na comunicação mediúnica, existe sempre um compromisso com o sagrado, com a verdade e com o bem do próximo. A espiritualidade não mede a grandeza de uma pessoa pela intensidade do transe, mas pela transformação moral que essa experiência produz em sua vida e no serviço prestado à coletividade. Reflexões: Ìfarahàn Ọ̀rìṣà kì í ṣe eré; iṣẹ́ mímọ́ ni. (A manifestação do Òrìṣà não é espetáculo; é um ato sagrado.) Gbígbàgbọ́ àti ìfarahàn orìṣà jẹ́ wíwà mímọ́ nínú ara ènìyàn ti ó gbé kàńjá. (A incorporação é a presença sagrada na frágil e pueril matéria humana!) Axé para todos!



