Homenagem a Rosa Perdigão: Ekẹdi, Baiana de Acarajé e defensora da cultura afro-brasileira
Homenagem a Rosa Perdigão: Ekẹdi e defensora da cultura afro

Há encontros que, sem sabermos, tornam-se despedidas. E como são importantes, em nossa vida, as bênçãos, os abraços e o afeto compartilhado. A última vez que estive com Rosa foi no dia 8 de junho, durante a entrega da Medalha Ìyá Oloórí, promovida pela Irmandade Mulheres de Yemọja, na Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro.

O último abraço e a partida de uma mulher extraordinária

Ao deixar o palco, caminhei até a entrada do Teatro Alcione Araújo. Lá estava Rosa, exatamente como todos aprenderam a conhecê-la: radiante, sorridente, respeitosa e acolhedora. Trocamos as bênçãos, nos abraçamos e seguimos nossos caminhos. Hoje compreendo que aquele foi o nosso último abraço. A dor da partida é grande, mas o conforto está nas lembranças de uma mulher extraordinária. Rosa Perdigão foi uma Ekẹdi dedicada, Baiana de Acarajé, defensora incansável da cultura afro-brasileira e uma pessoa que irradiava carisma. Seu sorriso sincero era uma de suas maiores marcas. Agora, segue seu caminho para o Òrun, deixando entre nós um vazio difícil de preencher.

O significado do àkàrà e a tradição do acarajé

Como Ekẹdi, Rosa conhecia profundamente o significado do àkàrà, alimento sagrado que, no Brasil, recebeu o nome de acarajé. Preparado com ẹwà erèétírọ̀ó (feijão-fradinho) e frito no azeite de dendê, o àkàrà é uma das mais belas oferendas dedicadas a Yánsàn. Mais do que um alimento, ele representa ancestralidade, resistência e identidade. E Rosa era exatamente isso: ancestralidade, resistência e identidade. À frente do Cheirinho de Dendê, levou a culinária de matriz africana para milhares de pessoas, preservando uma tradição centenária com dignidade, alegria e excelência.

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Atuação no rádio e defesa dos direitos culturais

Também participou do programa Papo Reto, de Wellington Andrade, na Rádio Roquette Pinto FM. Enquanto eu compartilhava com os ouvintes a energia dos Orixás, Rosa encantava a todos ensinando a riqueza da gastronomia afro-brasileira. Falava com leveza, espontaneidade e um entusiasmo contagiante. Sua atuação ia muito além da gastronomia. Filha de Mãe Margareth D'Oxum, do Ilê Axé Alto da Cachamorra, em Campo Grande, Rosa esteve sempre presente na defesa dos direitos das Baianas de Acarajé, dos artistas, dos profissionais da cultura e da valorização das tradições afro-brasileiras. Participava dos eventos religiosos, dialogava com o poder público e fazia de sua voz um instrumento de luta pela preservação da nossa herança ancestral.

Legado e conforto nas lembranças

Seu legado permanecerá vivo em cada tabuleiro de acarajé, em cada festa de axé, em cada sorriso acolhedor e em cada gesto de generosidade que inspirou ao longo de sua caminhada. Que o Ilê Axé Alto da Cachamorra, seus familiares, amigos e toda a comunidade encontrem conforto nas lembranças de uma mulher que honrou sua missão com dignidade, coragem, fé e amor. Rosa Perdigão não será lembrada apenas pelo sabor inesquecível do seu acarajé, mas pelo afeto com que acolhia as pessoas, pela firmeza de sua fé e pela grandeza do seu coração. Àwọn ènìyàn kan wà tí wọ́n jẹ́ ìmọ́lẹ̀ àti adùn nínú ìrìn ayé wa. (Existem pessoas que são luz e doçura em nossa caminhada.)

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