Os passageiros que passarem pela estação Fradique Coutinho, na Linha 4-Amarela, vão encontrar, a partir do dia 11, um cenário completamente diferente. A Motiva, organização responsável por ações culturais em espaços urbanos, inaugura uma exposição em homenagem à arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. A circulação da estação será transformada em uma galeria, com 98 peças espalhadas por painéis, adesivos, placas e duas maquetes que reproduzem projetos da arquiteta. As quatro escadarias do local, que somam 120 degraus, também serão ocupadas por intervenções artísticas.
A mostra integra o Projeto Centenários, que ao longo dos anos já celebrou nomes como Clarice Lispector, Tomie Ohtake, Grande Otelo e Jorge Amado. Trata-se de uma iniciativa que leva arte e memória para o dia a dia da cidade, ocupando estações de metrô como espaços de difusão cultural. A escolha da próxima homenageada não é casual: Lina Bo Bardi é considerada uma das mais importantes arquitetas do século XX e tem uma relação profunda com São Paulo.
Galerias dentro do metrô
A intervenção ocupa diferentes pontos da estação, criando um percurso contínuo que conduz o olhar do visitante. Os painéis trazem imagens e informações sobre a obra de Lina, enquanto os adesivos aplicados no piso e nas paredes propõem uma leitura poética do espaço. As duas maquetes, instaladas em pontos estratégicos, permitem uma aproximação tátil e visual com projetos icônicos da arquiteta, como o Museu de Arte de São Paulo e o SESC Pompéia.
Os 120 degraus, por sua vez, ganham cores e formas que remetem à estética da arquiteta, que sempre buscou integrar arte à vida cotidiana. A ideia é transformar o deslocamento diário dos usuários em uma experiência de descoberta, convidando-os a reparar em detalhes que normalmente passariam despercebidos na correria da rotina urbana.
Uma arquiteta à frente do seu tempo
Nascida em Roma, na Itália, em 1914, Lina Bo Bardi chegou ao Brasil em 1946, fugindo da Segunda Guerra Mundial na Europa. Ao lado do marido, o crítico de arte Pietro Maria Bardi, ela se instalou em São Paulo e passou a desenvolver uma obra que misturava rigor construtivo com sensibilidade social. Sua arquitetura valorizava os espaços de convivência e tinha como premissa a integração entre o edifício e a comunidade.
Entre seus projetos mais célebres estão o MASP, na Avenida Paulista, com seu vão livre que se tornou palco para manifestações culturais e políticas; o SESC Pompéia, um antigo tambor de fábrica transformado em centro de lazer; e o Teatro Oficina, no Bixiga. Lina também se destacou como cenógrafa, designer de móveis e gestora cultural, tendo dirigido o MASP em seu período mais transformador.
Circuito Cultural e formação de novos públicos
A abertura da exposição na estação Fradique Coutinho contará com uma visita guiada para 30 estudantes de uma escola pública da região. A atividade faz parte do Circuito Cultural, programa do Instituto Motiva dedicado à formação de plateia e ao estímulo do pensamento crítico sobre arte e cidade. Durante o passeio, os alunos terão a oportunidade de conversar com a curadoria e conhecer de perto as peças e maquetes expostas.
Para Renata Ruggiero, presidente do Instituto Motiva, levar a obra de Lina Bo Bardi para o metrô é uma forma de ampliar o alcance de sua mensagem. "Lina Bo Bardi ensinou o país a enxergar os espaços urbanos como lugares de encontro, pertencimento e convivência. Trazer sua obra para dentro de uma estação de metrô é uma forma de ampliar o alcance de seu legado", afirma.
Curadoria e revolução na arquitetura
Isa Ferraz, curadora do projeto, destaca a capacidade de Lina de transitar entre diferentes referências culturais. "Ela foi uma revolucionária na arquitetura brasileira, incorporando a cultura popular brasileira, livre e profunda, com o mais sofisticado de outras culturas, como a europeia", explica. Para Ferraz, exibir esse trabalho ao grande público é uma maneira de iluminar uma trajetória que continua inspirando arquitetos e artistas em todo o mundo.
A exposição na estação Fradique Coutinho é uma oportunidade rara de apreciar a obra de Lina Bo Bardi fora dos circuitos convencionais de museus e galerias. Ao ocupar um espaço de passagem, o projeto reinsere o debate sobre arquitetura e urbanismo no cotidiano, mostrando que a cidade é, em si, um grande museu a céu aberto.
A partir do dia 11, quem descer na estação Fradique Coutinho já não verá apenas um ponto de embarque e desembarque. Será, também, um convite para caminhar com outros olhos — observando as formas, as linhas e as histórias que compõem o patrimônio modernista de São Paulo. O Projeto Centenários, com a homenagem a Lina Bo Bardi, cumpre exatamente essa função: transformar a arte em algo acessível a todos, todos os dias.



