Cornélio Pires, 142 anos: g1 lança série sobre o pai da música sertaneja
Cornélio Pires, 142 anos: g1 lança série sobre o artista

Cornélio Pires, um dos maiores expoentes da cultura caipira brasileira, completaria 142 anos em 13 de julho de 2024. Para marcar a data, o g1 lançou uma série especial de reportagens que explora diferentes facetas da vida e obra do artista, que nasceu em Tietê (SP) e deixou um legado que atravessa gerações.

Trajetória multifacetada

Conhecido como o "pai da música sertaneja", Cornélio Pires foi o responsável pela primeira gravação de música caipira em disco de vinil no Brasil. No entanto, sua carreira profissional começou bem antes, como faxineiro no jornal O Tietê. Pedro Massa, presidente do Instituto Cornélio Pires, explica que o jornal foi o ponto de partida para o artista. "Ele começou varrendo o chão, depois organizando a máquina de tipografia. Todo o processo ele passou nesse jornal em Tietê, que hoje não existe mais", relata.

Jornalismo de impacto

Em 1901, Cornélio mudou-se para a capital paulista, onde atuou como repórter no Correio Paulista. Sua grande cobertura foi a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1904. "Cornélio pegava a caderneta dele, ia à estação e ficava esperando. A hora que chegava o trem lotado, com as pessoas fugindo da revolta, ele ia abordando e anotando tudo. As matérias foram um sucesso e colocaram ele em um holofote imenso", conta Pedro Massa. Posteriormente, ele dirigiu a Tribuna de Santos e colaborou com jornais de todo o país.

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Voz crítica e visionária

Cornélio usava o jornalismo como plataforma para opiniões fortes. Na década de 1930, já criticava o desmatamento e a caça de animais, além de se opor à ditadura de Getúlio Vargas. Em parceria com o cartunista Voltolino, criou o almanaque "O Sacy", com charges políticas provocativas. "Eu não faço ideia de como o Cornélio não foi preso. Ele escrevia abertamente contra Getúlio e, além dos jornais, falava sobre nos discos", destaca Pedro.

Defensor do nacionalismo, Cornélio era contra a "americanização" da cultura e repudiava anglicismos. "Ele não gostava de palavras que vinham de lá, como ‘sanduíche’. O termo correto era lanche", exemplifica Pedro.

Legado cultural e reconhecimento

Apesar de sua contribuição, Cornélio nunca foi reconhecido pela Academia Brasileira de Letras. "Os classicistas intelectuais da época tinham um movimento contra ele. Cornélio não conseguiu entrar em nenhuma academia e não foi agraciado com nenhum título até hoje", lamenta Pedro Massa. Mesmo assim, sua obra inspira artistas e pesquisadores.

A sobrinha-neta Maria Osira Martim, de 91 anos, lembra do tio como alguém reservado e caridoso. "Cornélio era uma pessoa que viajava muito e ficava pouco tempo na cidade. Apesar de ser um artista conhecido, era muito reservado quando se tratava de família. Ele gostava de fazer muita caridade", descreve.

Espiritismo e filantropia

Seguidor do kardecismo, Cornélio fundou a Casa dos Meninos, um abrigo para jovens em situação de vulnerabilidade, que funciona até hoje em Tietê. "A intenção era que fosse uma escola técnica, mas hoje dá assistência ao CAPS e é um braço da justiça restaurativa", explica Ana Luísa Pires, também sobrinha-neta.

Cornélio morreu em 17 de janeiro de 1958, vítima de câncer na garganta. Foi enterrado de pijama e descalço, conforme seu pedido, pois havia doado todas as roupas. "No meio dos caminhos da vida, Cornélio conheceu o kardecismo, que tem o altruísmo como bandeira. As pessoas viviam às custas dele, pois ele ajudava todo mundo", conclui Pedro.

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