Há 50 anos, Clara Nunes lançava 'Canto das três raças', álbum que se impõe como divisor de águas em sua trajetória fonográfica. Em 1976, a mineira Clara Francisca Gonçalves (1942-1983) já era convertida ao samba há cinco anos e se destacava como uma das maiores cantoras do gênero. No entanto, este disco expandiu seu canto, permitindo que ela fosse percebida como cantora de música brasileira, sem o rótulo restritivo de sambista.
A parceria com Paulo César Pinheiro
Para atingir esse objetivo, foi fundamental a união com o compositor e produtor Paulo César Pinheiro, com quem Clara se casou em julho de 1975. 'Canto das três raças' marca o início dessa parceria, que durou até a morte precoce da cantora em 1983. O álbum foi gravado entre julho e agosto de 1976 e lançado pela EMI-Odeon em LP de capa dupla com luxuosa arte gráfica.
O repertório irretocável
Como todos os discos de Clara a partir de 1971, o repertório é impecável. A faixa-título, parceria de Pinheiro com Mauro Duarte, é um dos sambas mais conhecidos da cantora. Outro destaque é 'Lama', de Mauro Duarte, que originalmente foi oferecida a Ataulfo Alves e recusada. O disco inclui também 'Alvoroço no sertão', baião de Aldair Soares e Raimundo Evangelista, que Clara ouvia na infância em Minas Gerais.
Participações especiais
Nelson Cavaquinho aparece com duas composições: 'Tenha paciência' e 'Risos e lágrimas'. A valsa 'Ai quem me dera', de Vinicius de Moraes, ganhou arranjo de Francis Hime. 'Fuzuê', de Romildo Bastos e Toninho Nascimento, evoca o jongo e a capoeira. 'Meu sofrer', de Bide e Marçal, e 'Retrato falado', de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, completam o álbum.
Sucesso e legado
Com cerca de 300 mil cópias vendidas, o álbum preparou o terreno para grandes discos posteriores, como 'As forças da natureza' (1977), 'Brasil mestiço' (1980) e 'Nação' (1982). 'Canto das três raças' sintetizou a intenção de Clara e Pinheiro de traduzir a amplitude musical do Brasil mestiço, consolidando o legado da imortal cantora.



