Café com fé: a história da bebida que uniu religião e best-sellers no Brasil
Café com fé: história e sucesso editorial no Brasil

O café, uma das bebidas mais consumidas no Brasil — segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), o país é o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos —, tem uma história marcada por controvérsias religiosas. Antes de se tornar símbolo de encontro e espiritualidade em best-sellers como Café com Deus Pai, do pastor Junior Rostirola, a bebida já foi chamada de "vinho do diabo" por católicos e ainda hoje é proibida para mórmons e desaconselhada para adventistas do sétimo dia.

Origens lendárias e a relação com a fé

Os primeiros registros escritos sobre o consumo de café datam do século 6º, conforme explica a gastrônoma e historiadora Camila Landi, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Uma lenda etíope conta que um pastor de cabras notou um "frenesi" atípico em seu rebanho após o consumo da planta. A torrefação teria começado no século 14, quando monges da Igreja Ortodoxa Etíope jogaram os frutos no fogo por achá-los amargos e se surpreenderam com o aroma. "Assim teria nascido a bebida", diz Landi.

No século 15, o café foi adotado por muçulmanos sufistas do Iêmen para manter-se acordados durante longas preces noturnas. Os árabes o chamavam de qahwah (vinho), comparando suas propriedades estimulantes às do álcool, proibido no Islã. Juristas islâmicos, no entanto, permitiram o café por não inebriar nem prejudicar o discernimento.

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O "vinho do diabo" e o batismo papal

O café chegou à Europa no século 16, via Turquia, e foi recebido com desconfiança pelos cristãos, que o viam como "bebida do satanás" por sua origem árabe-islâmica. Em Veneza, por volta de 1570, a bebida gerou debate no mundo católico. A tradição histórica conta que o papa Clemente 8º (1536-1605) provou o café e, achando-o tão bom, decidiu "batizá-lo", tornando-o aceitável para os cristãos. Segundo o Yale Center for the Study of Globalization, a aprovação papal ajudou a manter a sobriedade da população em uma época de consumo excessivo de álcool.

Proibições atuais: mórmons e adventistas

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons) proíbe o café desde 1833, quando Joseph Smith escreveu em Doutrina e Convênios a condenação de "bebidas quentes". O historiador Keith Erekson, da igreja, explicou à BBC News Brasil em 2023 que a revelação incentiva o cuidado com o corpo para receber recompensas espirituais.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia não proíbe, mas orienta seus adeptos a não beberem café. A biomédica Lanny Cristina Burlandy Soares, diretora associada de saúde da igreja para a América do Sul, afirma que a cafeína pode causar dependência e que o corpo é "templo do Espírito Santo". Ela relembra que, em 1511, setores rigorosos de Meca proibiram o café por supostamente contrariar o Alcorão.

O fenômeno editorial "Café com..."

O pastor Junior Rostirola, da Igreja Reviver em Itajaí (SC), viu seu livro Café com Deus Pai vender mais de 10 milhões de exemplares, tornando-se o autor brasileiro mais vendido em 2023. "O café simboliza uma pausa, um momento de conversa, acolhimento e proximidade", diz Rostirola. O sucesso gerou uma onda de títulos similares, como Café com Nossa Senhora, Café com Jesus e até Café com Exu, do psicólogo Rubens Oliveira, que une a metáfora do café com orixás afro-brasileiros.

A jornalista Lilian Cardoso, especialista em marketing literário, atribui o sucesso à "sacada do título" e à audiência prévia do autor. "Outros projetos foram surfando nessa onda dos devocionais", analisa.

Metáfora cultural e acolhimento

Para Oliveira, o café representa "encontro, conversa, pausa" e, em tempos de excesso de informação, a ideia de um momento de reflexão é sedutora. A adventista Soares afirma que sua igreja vê com admiração o alcance dessas obras, pois a metáfora do café "não é um endosso da bebida, mas uma imagem poderosa de acolhimento". "Nossa posição é simples: acolhemos com simpatia qualquer iniciativa que aproxime as pessoas de Deus", resume.

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