Em uma crônica afiada sobre os costumes contemporâneos, o autor observa uma cena comum nos dias de hoje: um café onde a xícara chega acompanhada de uma aula teórica sobre a origem do grão, a torra e até o estado emocional do barista. Faltou apenas o tipo sanguíneo da espuma. Na mesa ao lado, uma moça não tomava seu café; produzia conteúdo, com o celular apoiado em um tripé do tamanho de um obelisco. O café esfria, mas o conteúdo monetiza. Quando ela finalmente deu o primeiro gole, a bebida já tinha cumprido sua missão histórica: render três stories, dois reels e um testemunho emocionado sobre estar presente naquele momento.
O Almoço Virou Feed
O autor ironiza que, hoje, ninguém mais almoça; todos alimentam o feed. Durante séculos, a humanidade lutou para ser alguém; agora, basta parecer ocupado consigo mesmo. A cidade de São Paulo, que já teve livrarias, cinemas de rua e botequins onde desconhecidos discutiam futebol e política com igual desconhecimento, agora oferece cenários. Não importa o cardápio; só conta a parede que será fotografada. O restaurante deixou de servir clientes para servir fundos instagramáveis. É o século em que até o silêncio precisa de legenda.
Os Novos Sacerdotes da Autoestima
Os novos sacerdotes dessa era são coaches, creators e estrategistas de marca pessoal. No passado, vendiam elixires em carroças; evoluíram para o Claude. E logo descobriram que autoestima dá margem bem maior que óleo de fígado de bacalhau. O coach moderno possui uma habilidade inata: transformar obviedades em mentorias premium. Dizer "acorde cedo" virou metodologia científica; respirar fundo virou protocolo; beber água exige inscrição antecipada. A mediocridade, quando ganha microfone, passa a cobrar ingresso.
O Fascínio pelo Brilho Barato
O autor confessa que também já perdeu minutos assistindo a vídeos intitulados "sete hábitos das pessoas extraordinárias". Nunca chegou ao sétimo, pois no quarto hábito apareceu uma propaganda de suplemento alimentar e ele percebeu que extraordinária era a conta bancária de quem gravou o vídeo. Todos somos seduzidos pelo brilho barato, mas uns compram a ideia, outros vendem o curso.
A Fama como Profissão Liberal
O mais fascinante, segundo o autor, é que ninguém deseja ser admirado por aquilo que faz; querem ser admirados por estarem sendo admirados. A fama deixou de ser consequência e virou profissão liberal. Como toda profissão liberal, depende menos de talento do que de networking, iluminação adequada e uma câmera frontal bem regulada. A verdade é que a cidade continua cheia; apenas mudou o desfile. Antes havia figurões; hoje há perfis. Os pavões descobriram a IA e nunca mais fecharão as caudas.



