Bando Anunciador: de anúncio religioso a festa popular em Feira de Santana
Bando Anunciador: de anúncio religioso a festa popular

O Bando Anunciador, tradicional cortejo que percorre as ruas do Centro de Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, nasceu há mais de um século com uma função bem diferente da atual: anunciar à população que a Festa de Senhora Sant'Ana, padroeira do município, estava prestes a começar. Realizado sempre no domingo que antecede em 15 dias a festa da padroeira, o Bando Anunciador se consolidou como uma das principais manifestações culturais da cidade e atravessou diferentes momentos da história local. No próximo domingo (12), o cortejo volta a ocupar o Centro Histórico reunindo grupos organizados por moradores de bairros, famílias, amigos, estudantes e instituições, que mantêm viva uma tradição iniciada ainda no século XIX.

Origem no século XIX e transformação popular

A historiadora e diretora do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Cristiana Oliveira, explicou ao g1 que os primeiros registros da manifestação remontam ao período em que Feira ainda era uma vila. "O Bando Anunciador surgiu no século XIX para anunciar à população que a festa da padroeira estava se aproximando. Era um grupo que percorria as ruas da então vila informando quando começariam os festejos e convidando as pessoas para participar dos ritos religiosos". Segundo a historiadora, naquele período a organização da manifestação estava ligada às famílias que concentravam poder econômico e político na cidade, como fazendeiros, criadores de gado e comerciantes, que também participavam da comissão responsável pela realização da festa religiosa. A tradição está diretamente relacionada ao processo de povoamento da região e à devoção portuguesa à Senhora Sant'Ana, introduzida no Brasil durante a colonização.

Popularização e incorporação de novos elementos

Com o passar dos anos, o Bando passou por transformações e deixou de ser uma manifestação vinculada apenas às elites locais. A população passou a ocupar esse espaço e a incorporar novas formas de participação, fazendo surgir as fantasias, as marchinhas, os grupos organizados pelos bairros e manifestações marcadas pelo humor, pela irreverência e também por críticas sociais. "O Bando Anunciador traduz muito o povo nas ruas do comércio popular, da feira livre, em torno de uma religiosidade que traduz, não só elementos do catolicismo, elementos mais vinculados à identidade do ser feliz", compartilhou a diretora. Essa transformação também fez com que a celebração incorporasse elementos da religiosidade popular e influências das religiões de matriz africana, características que permanecem presentes na manifestação até hoje.

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Extinção em 1987 e retomada em 2007

Apesar da forte identificação da população com o cortejo, a tradição deixou de acontecer em 1987. Segundo Cristiana Oliveira, uma orientação da Igreja Católica determinou que práticas consideradas profanas fossem desvinculadas das celebrações religiosas. Além do Bando Anunciador, outras manifestações populares ligadas às festas de padroeiros também deixaram de ser realizadas em Feira de Santana. A retomada aconteceu apenas em 2007, a partir de uma articulação coordenada pelo Cuca com diferentes instituições e representantes da sociedade. Desde então, o cortejo voltou a fazer parte do calendário cultural da cidade e cresceu a cada edição, sendo interrompido apenas durante o período da pandemia de Covid-19. Atualmente, o Cuca atua como articulador da realização da festa, que também envolve órgãos municipais, forças de segurança, instituições, agentes culturais, representantes da comunidade, comerciantes e vendedores ambulantes.

Crescimento do público e reconhecimento oficial

Desde a retomada, o cortejo voltou a crescer. Em 2019, último ano antes da pandemia de Covid-19, o público estimado foi de 25 mil pessoas. Em 2023, quando a festa retornou, cerca de 40 mil pessoas participaram da manifestação. Em reconhecimento à importância histórica e cultural do evento, o Bando Anunciador passou a integrar oficialmente o calendário de festas populares de Feira de Santana em 2022, por meio da Lei Municipal nº 4.089.

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Linha do tempo do Bando Anunciador

  • Século XIX: surge como cortejo que anunciava a Festa de Senhora Sant'Ana.
  • Décadas seguintes: deixa de ser uma tradição das elites e passa a ser apropriado pela população.
  • 1987: o cortejo é extinto após orientação da Igreja Católica que determinou o fim das manifestações consideradas profanas.
  • 2007: o Cuca/Uefs lidera a retomada da tradição.
  • 2022: o Bando passa a integrar oficialmente o calendário de festas populares de Feira de Santana.
  • 2023: retorna após a pandemia reunindo cerca de 40 mil pessoas.

Cortejo começa muito antes de chegar ao Centro

Embora o desfile principal aconteça nas ruas do Centro Histórico, a movimentação começa ainda durante a madrugada em diferentes bairros da cidade. É quando os grupos organizados iniciam o deslocamento até o ponto de concentração do cortejo oficial. "Existe um outro cortejo que acontece antes e depois do desfile oficial. Os grupos saem dos bairros muito cedo, alguns ainda de madrugada, e seguem até o Cuca. Depois, retornam juntos. É uma manifestação muito bonita porque mostra a força da organização comunitária". Ainda segundo Cristiana Oliveira, esses grupos são formados de maneira espontânea e reúnem moradores de bairros, familiares, amigos, colegas de trabalho, estudantes e representantes de diferentes segmentos da sociedade. Alguns existem há décadas e mobilizam milhares de pessoas, enquanto outros surgem apenas para uma edição do evento. Devido a essa dinâmica, não existe um número oficial de bandos participantes.

Charangas, fanfarras e o movimento comercial

Outro elemento tradicional do cortejo é a música. Durante todo o percurso, os grupos são acompanhados por charangas e fanfarras que executam marchinhas e canções populares. A historiadora explica que, embora os dois nomes sejam frequentemente utilizados como sinônimos, existem diferenças entre eles. "As charangas são diferentes das fanfarras. Elas são menores, formadas principalmente por instrumentos de sopro e percussão, enquanto as fanfarras possuem uma formação maior e um número mais amplo de músicos". Segundo ela, ao longo dos anos esses grupos também incorporaram influências da musicalidade das religiões de matriz africana, reforçando o caráter popular da manifestação e contribuindo para a construção da identidade sonora do Bando Anunciador.

Além do aspecto histórico e cultural, a manifestação também movimenta a economia local. Nas semanas que antecedem o cortejo, cresce a procura por fantasias, tecidos, adereços, bijuterias e acessórios utilizados pelos participantes. O evento também impulsiona o comércio ambulante e atrai visitantes de municípios vizinhos durante o mês de julho. Para Cristiana Oliveira, a permanência do Bando Anunciador ao longo das gerações demonstra a força da manifestação como elemento da identidade cultural feirense. A presença de famílias inteiras no cortejo evidencia que a tradição continua sendo transmitida entre diferentes gerações.