No próximo sábado, 1º de agosto, às 12h, no canteiro central da Linha Amarela, próximo ao acesso à Cidade Universitária (UFRJ), na Ilha do Fundão, lideranças das religiões de matriz africana e representantes da sociedade civil promoverão um ato público, seguido de uma lavagem ritualística, para cobrar a reinstalação da obra Exu dos Ventos. O monumento, um dos mais importantes da arte pública afro-brasileira do Rio de Janeiro, está há mais de duas décadas com sua parte superior retirada, guardada no depósito da Fundação Parques e Jardins.
A história da escultura Exu dos Ventos
Criada em 1992 pelo consagrado escultor baiano Mario Cravo Júnior, a obra tem aproximadamente 10 metros de altura e cerca de duas toneladas, construída em aço corten nas cores vermelho e preto. Diferentemente do que muitos imaginam, sua intenção não era produzir um monumento religioso, mas criar uma obra de arte pública que representasse uma das matrizes formadoras da identidade cultural brasileira. Para isso, Cravo Júnior buscou inspiração no tradicional brinquedo popular nordestino Mané-gostoso, cuja estrutura gira impulsionada pela força do vento, uma metáfora perfeita para Exu, a divindade yorubá que simboliza a comunicação, a circulação da energia, os caminhos e as transformações.
Instalação e controvérsia
A obra permaneceu anos sem destino até ser instalada na entrada da Linha Amarela em dezembro de 2000, durante a gestão do prefeito Luiz Paulo Conde. A escolha do local carregava forte simbolismo: a via representa o encontro de caminhos e o fluxo de pessoas. Entretanto, a instalação coincidiu com o período eleitoral e provocou reação de segmentos conservadores, que pressionaram a Prefeitura. A polêmica levou ao adiamento da inauguração oficial, e a escultura foi instalada de forma discreta após o pleito.
A partir de então, o monumento tornou-se alvo de sucessivos atos de vandalismo e depredação, denunciados pelo jornal Extra. Em maio de 2005, fortes ventos agravaram problemas estruturais, e a administração do prefeito Cesar Maia retirou a parte superior sob justificativa de segurança, medida que se tornou permanente. Hoje, apenas a base permanece no local.
O ato do dia 1º de agosto
A mobilização será promovida pela Irmandade Cultura Afro-Brasileira (IRMAFRO) e pela Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA). O ponto alto será uma lavagem ritualística na base da escultura, com cânticos em louvor a Exu. Segundo os organizadores, o objetivo é sensibilizar a Prefeitura do Rio para uma solução definitiva. Como resume Sérgio de Oxaguian, diretor da ANMA: "Este ato não é apenas uma manifestação religiosa. É um clamor pela preservação da memória afro-brasileira, pelo respeito à liberdade de culto e pela valorização de um patrimônio que pertence à história do Rio de Janeiro."
Pai Nando de Oxaguian, liderança da IRMAFRO, lembra que a luta começou com o saudoso Pai Renato de Obaluaiyê: "Meu pai lutou muito pela recuperação dessa escultura, que se tornou um símbolo da resistência das nossas tradições no Rio de Janeiro. Para nós, Exu dos Ventos não é apenas uma escultura; é a representação do Orixá Exu guardando os caminhos de todos."
Um símbolo de resistência e liberdade religiosa
Mais do que restaurar uma escultura, a mobilização representa a defesa da memória coletiva e da liberdade religiosa. Concebido por Mario Cravo Júnior como uma celebração do movimento e da riqueza cultural brasileira, Exu dos Ventos transformou-se em símbolo da resistência ao racismo religioso. Sua reinstalação reafirma que a história, a ancestralidade e a cultura afro-brasileiras têm lugar no espaço público. A Constituição Federal garante a liberdade religiosa e protege o patrimônio cultural brasileiro; a intolerância religiosa e o racismo religioso são crimes.



