Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra na ABL, fala sobre racismo e literatura
Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra na ABL, fala sobre racismo e literatura

Em 7 de novembro, a Academia Brasileira de Letras (ABL) terá um momento histórico: a escritora mineira Ana Maria Gonçalves, de 55 anos, tomará posse como a primeira mulher negra imortal da instituição, fundada há quase 130 anos. A consagração destaca uma autora que trocou a carreira de publicitária pela literatura aos 30 anos e, com o romance 'Um Defeito de Cor' (2006), trouxe à tona a visão de mundo dos negros brasileiros ao narrar a história inspirada em Luísa Mahin, figura central da Revolta dos Malês e mãe do abolicionista Luiz Gama.

Em entrevista, Ana Maria reflete sobre o significado da conquista: 'É importante relembrar Júlia Lopes de Almeida, que ajudou a fundar a ABL mas teve seu espaço negado. Homens a proibiram de assumir a cadeira número 3 e colocaram o marido no lugar. Em 1977, entrou Rachel de Queiroz, a primeira mulher, e hoje sou a 13ª. Quando tomar posse, seremos seis mulheres entre quarenta acadêmicos — ainda é pouco. Minha eleição é um aceno da Academia para se enxergar e entender o que falta, pois o quadro ainda não espelha a cultura e a sociedade brasileiras.'

Sobre os avanços raciais no Brasil desde a publicação de seu livro, a autora afirma: 'Acredito que sim, porque agora conseguimos falar em público sobre essas pautas. Durante a ditadura militar, a ideia de democracia racial silenciava o assunto. Nos anos 2000, a discussão sobre cotas rompeu essa barreira, graças ao trabalho dos movimentos negros.' Ela pondera, porém, que o progresso é limitado: 'Mais de três séculos de escravidão mostraram a eficácia da prática racista. Vejo avanços em algumas áreas, mas ainda temos muito a caminhar. O fato de podermos conversar e ter pessoas dispostas a ouvir já é um grande passo.'

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A escritora também critica o apagamento de heróis negros na história, como Luiz Gama: 'Gerações anteriores perderam a chance de se identificar com seus heróis. Estudei sobre a Guerra do Peloponeso, mas não sobre Zumbi dos Palmares. Foi um projeto pedagógico, principalmente na ditadura, de apagar nossa história ao não falar sobre a escravidão. Muitos heróis e heroínas dos levantes pela Abolição foram apagados, e daí surgiu o termo.'

Com a projeção na ABL, 'Um Defeito de Cor' voltou às listas de best-sellers, resgatando uma obra que expõe a luta e a resistência negra no Brasil.

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