Era um domingo de claridade antiga, dessas manhãs que escapam da infância e continuam aparecendo de vez em quando para nos lembrar que o mundo ainda sabe ser simples. Saí para caminhar perto das onze e meia. Gosto desse horário em que o bairro já acordou, mas ainda não foi vencido pelo almoço. As padarias respiram café, as janelas permanecem abertas, um cachorro late sem convicção, e até as árvores cochicham em voz baixa.
Foi então que notei os pombos. Havia qualquer coisa de diferente naquele bando. Não era a fome, porque a fome dos pombos é uma condição permanente, quase uma filosofia de vida. Era outra coisa: uma expectativa. Voavam em círculos baixos, pousavam, tornavam a levantar voo.
Pouco depois surgiu o homem. Devia ter perto de oitenta anos. Era baixo, um pouco curvado, e caminhava sem pressa ou hesitação. Passava a ideia de que conhecia exatamente o tamanho do caminho. Trazia um saco grande de quirera na mão.
O gesto que mudou a manhã
Aproximou-se da praça. Não fez cerimônia. Abriu o saco e espalhou todo o milho quebrado sobre o chão. Foi um gesto breve. Os pombos desceram na hora. Não feito aves assustadas, mas que nem velhos conhecidos que reconhecem uma voz antes mesmo de escutá-la. Naquele instante compreendi a inquietação que havia percebido minutos antes. Eles não esperavam alimento. Aguardavam o homem.
Fiquei imaginando há quanto tempo aquilo acontecia. Um ano? Dez? Vinte? Talvez alguns daqueles pombos nunca tivessem conhecido outro rosto. É provável que outros já tivessem morrido, substituídos por novas gerações que aprenderam, sem que ninguém lhes ensinasse, que aos domingos (ou quem sabe todos os dias) um velho apareceria trazendo abundância.
O bairro mudou, o encontro permanece
Enquanto isso, o bairro devia ter mudado inúmeras vezes. Casas derrubadas, árvores plantadas, crianças transformadas em adultos, adultos transformados em porta-retratos. Mas aquele encontro continuava acontecendo com a pontualidade das coisas que nunca entram para a História.
Depois de esvaziar o saco, o homem caminhou até seu carro. Abriu o porta-malas e guardou a embalagem vazia. Sentou-se devagar ao volante, como fazem as pessoas que conhecem bem onde e como pousar uma coluna veterana. Partiu sem olhar para trás.
Continuei observando. Os pombos cobriam o chão da praça numa agitação feliz, e o automóvel já desaparecia na esquina.
Reflexão sobre a bondade anônima
Pensei que, desde menino, sempre ouvimos falar dos grandes benfeitores da humanidade. Homens que mudaram países, descobriram vacinas, escreveram livros indispensáveis. Quase nunca nos contam a história dos outros. Os que alimentam pombos. Os que regam uma árvore que não plantaram. Os que conversam diariamente com um vizinho esquecido. Esses que fazem do anonimato uma profissão silenciosa.
Talvez a bondade tenha exatamente este tamanho. Não o das estátuas. O de um saco de quirera levado de casa até uma praça, numa manhã qualquer de domingo, para que um punhado de pombos continue acreditando que o mundo é pontual.



