O cigarro que não existia: memória e psicanálise
O cigarro que não existia: memória e psicanálise

Possivelmente uma das cenas mais impressionantes que carrego em minha memória, cheia de significantes, afetos e simbologias, é esta. O ano era 2014. Minha avó paterna estava hospitalizada na Santa Casa de Juiz de Fora. Meu pai, seu filho, que vivia em Leopoldina, cidade próxima, hospedou-se em minha casa para acompanhar a mãe adoentada. Estava um pouco aflito, já que a nonagenária senhora estava na UTI daquele hospital.

É impraticável estudar textos de Freud e não emergir a lembrança do ocorrido, escreveu autor.

Eu o acompanhei na primeira visita. Fomos juntos à Unidade de Tratamento Intensivo vê-la. Encontrava-se confusa, sonolenta, e pouco pôde conversar. Assim que saímos da UTI, meu pai foi até a janela do corredor daquela unidade e buscou um cigarro no bolso de sua camisa. E foi o que me comoveu e nunca mais saiu de mim. Sua camisa não tinha bolso, nem trazia consigo cigarros, pois havia parado de fumar há cerca de duas décadas. Nossos olhares se cruzaram e nada precisou ser dito.

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Naquela mesma UTI, em 1991, havia morrido minha mãe. Meu pai frequentou aquele andar e aquela unidade por cerca de três anos. Ainda fumava e deve ter tentado dar vazão à sua angústia, naquela janela, através de centenas de cigarros. Pai de quatro crianças, tornou-se viúvo aos 39 anos.

É impraticável estudar textos de Freud, como Psicopatologia da vida cotidiana (1901) e Recordar, repetir e elaborar (1914), ou de Lacan, como Função e campo da fala e da linguagem (1953) ou A instância da letra no inconsciente (1957), e não emergir em mim, imediatamente, a lembrança do ocorrido. Isso para ficar em poucos exemplos.

Sem pretender submeter o fato narrado às teorias psicanalíticas, pois isso não cabe a mim e nem a esse espaço, mas me apoiando nelas para dar azo às minhas perlaborações, encontro em Freud expressões como “afeto doloroso”, “material inconsciente” e “descoberta do elemento perturbador”; “atos sintomáticos” e “forças moventes por trás dos sintomas”; “o ato falho adquire uma função útil”; ou “a natureza tendenciosa de nossas recordações”. A mais impactante: o sujeito “não recorda absolutamente o que foi esquecido e recalcado, mas sim o atua”. Com Lacan o mesmo incide quando aponta que “a amnésia do recalque é uma das formas mais vivas de memória”; ou que “o que ensinamos o sujeito a reconhecer como seu inconsciente é sua história”, que é o “sujeito definido por sua historicidade”; que “todo ato falho é um discurso bem-sucedido”; que “as palavras são tiradas de todas as imagens corporais que cativam o sujeito”. Se lermos o fato com Lacan, pode ter sido o “meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura”.

É na intermediação da morte que reconhecemos nossa humanidade. Meu pai, quem sabe, trouxesse em seu bolso faltante o espectro da morte, que novamente rondava sua história; ou “isso não é um cigarro” (ou cachimbo, ou charuto, ou algo a que fumar), em uma citação enviesada de Magritte. Minha avó viria a falecer somente em novembro de 2024, de outras causas que não aquela que a fez ser internada dez anos antes. Morreu dez meses depois de meu pai. Com minha camisa sem bolso, peço-lhes licença que vou fumar o cigarro que não trago, à beira da janela que me amortece.

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