O Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (WGA) rompeu oficialmente os laços com o Urbanworld Film Festival, um dos mais importantes festivais de cinema de Nova York focado em obras de cineastas negros e de diversas culturas. A decisão foi motivada pela exibição de filmes produzidos com inteligência artificial (IA) na edição deste ano, gerando controvérsia no meio cinematográfico.
Decisão do sindicato e reação do festival
Em comunicado oficial, o WGA afirmou que não apoiará mais o Urbanworld Film Festival enquanto o evento continuar a incluir em sua programação filmes cujos roteiros foram gerados ou aprimorados por sistemas de IA. Segundo o sindicato, a prática desrespeita o trabalho dos roteiristas e ameaça a integridade criativa da indústria.
O fundador do festival, Stacy Spikes, declarou: “Estamos profundamente decepcionados com a decisão do WGA. Acreditamos que a tecnologia pode coexistir com a arte, e que a IA não substitui a criatividade humana, mas sim a amplia. Nosso compromisso com a diversidade e a inclusão permanece inabalável”. Spikes fundou o Urbanworld em 1997 com o objetivo de dar visibilidade a cineastas de comunidades sub-representadas.
Contexto da polêmica sobre inteligência artificial no cinema
A controvérsia sobre o uso de IA na produção cinematográfica tem se intensificado nos últimos meses. Grandes estúdios e sindicatos travam negociações para definir limites éticos e contratuais para o uso de ferramentas como ChatGPT e outros geradores de roteiro. O WGA, que encerrou uma greve histórica em 2023, incluiu cláusulas específicas contra a substituição de roteiristas por IA em seu novo contrato.
De acordo com dados da indústria, pelo menos 10% dos roteiros submetidos a festivais independentes em 2024 utilizaram algum tipo de auxílio de IA, segundo estimativas do próprio Urbanworld. O festival exibiu três curtas-metragens criados com IA generativa nesta edição, o que provocou a reação do sindicato.
Impacto no festival e na comunidade cinematográfica
A ruptura pode ter implicações financeiras e de prestígio para o Urbanworld, que contava com o endosso do WGA para atrair roteiristas e patrocinadores. O festival, que acontece anualmente em Nova York, exibe cerca de 100 filmes de mais de 30 nacionalidades, com foco em narrativas negras, latinas, asiáticas e indígenas.
Spikes, em entrevista ao The New York Times, disse que o Urbanworld não planeja banir filmes com IA, mas pretende abrir um diálogo com o sindicato. “Não queremos fechar portas para a inovação. O cinema sempre se reinventou tecnologicamente. A questão é como garantir que os direitos dos roteiristas sejam preservados”, afirmou.
O WGA, por sua vez, mantém a posição de que qualquer uso de IA na escrita criativa deve ser regulamentado e transparente. “Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de proteger o trabalho humano. Não podemos permitir que a IA seja usada para rebaixar salários ou condições de trabalho”, declarou um porta-voz do sindicato.
Reações e próximos passos
Diversos cineastas e críticos se manifestaram nas redes sociais. Enquanto alguns apoiam a decisão do WGA, outros defendem a liberdade criativa do festival. O Urbanworld já anunciou que realizará um painel sobre IA e diversidade no cinema em sua próxima edição, como forma de aprofundar o debate.
O rompimento ocorre em um momento em que festivais ao redor do mundo, como o Sundance e o Cannes, também discutem políticas para filmes com IA. Até o momento, nenhum deles proibiu totalmente essas obras, mas alguns impuseram regras de divulgação.



