Luiz Carlos Barreto, gigante do cinema brasileiro, morre aos 98 anos no Rio
Luiz Carlos Barreto morre aos 98 anos no Rio

O cinema brasileiro perdeu na madrugada desta quarta-feira (22) um dos seus maiores expoentes. Luiz Carlos Barreto, conhecido como Barretão, morreu no Rio de Janeiro aos 98 anos. Cearense de Sobral, ele construiu uma trajetória multifacetada: foi fotógrafo de celebridades como Marilyn Monroe e Frank Sinatra, jornalista, jogador de futebol amador pelo Flamengo e, principalmente, um dos principais produtores do país, ajudando a transformar o cinema nacional em referência internacional.

Do jornalismo ao Cinema Novo

Antes de se dedicar ao cinema, Barreto destacou-se no jornalismo. Escrevia para o jornal do Partido Comunista, então ilegal, e por pressão da mãe mudou-se para o Rio de Janeiro para evitar perseguições políticas. Na capital, tornou-se repórter e fotógrafo da revista O Cruzeiro, chegando a ser correspondente na Europa e a fotografar personalidades como Frank Sinatra, Fidel Castro e Marilyn Monroe.

Foi em uma viagem à Bahia para a revista que conheceu Glauber Rocha, durante as filmagens de Barravento. O encontro mudou sua trajetória. “O Glauber chegou pra mim: você tem que fotografar o Vidas Secas. Vamos fazer porque você vai fazer uma fotografia que ainda não foi feita no Nordeste”, relatou o cineasta em entrevista. “Todo filme no Nordeste, o Nordeste parece um jardim. Falei, concordo com você. Eu quero mostrar a intensidade da luz, a luz como um personagem que destrói a paisagem, destrói a plantação, que incomoda o homem.”

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A produtora LC Barreto e os grandes sucessos

Luiz Carlos Barreto assinou a direção de fotografia de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Ao lado da mulher, Lucy Barreto, com quem foi casado durante 65 anos, fundou a produtora LC Barreto. O casal teve três filhos cineastas: Bruno, Fábio e Paula Barreto. “O cinema é uma doença que quando dá, dá na família inteira”, declarou certa vez. “A Lucy é que botou a ciência no feitiço, como Glauber dizia.”

A LC Barreto produziu mais de 150 filmes, incluindo sucessos como Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues; O Beijo no Asfalto; e Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto. Este último levou mais de 10 milhões de pessoas aos cinemas, tornou-se uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro e foi exibido em 80 países. “Os filmes foram sempre aqueles filmes que a gente quis fazer, da melhor maneira com quem a gente quis fazer, com a liberdade que a gente quis, mesmo na época da ditadura, conseguimos manter viva nossa produção. O cinema brasileiro, apesar das quedas e das crises, sempre ressurgiu cada vez melhor e mais forte”, disse Luiz Carlos.

Reconhecimento e legado

A família Barreto levou o Brasil duas vezes ao Oscar, com O Que É Isso, Companheiro? (dirigido por Bruno Barreto) e O Quatrilho (dirigido por Fábio Barreto). Conhecido como “O poderoso chefão” do cinema nacional, Luiz Carlos Barreto recebeu do escritor Nelson Rodrigues o apelido de Barretão. Os dois costumavam frequentar estádios de futebol juntos.

Além do cinema, Barreto teve uma paixão pelo futebol. Jogou nas categorias de base e integrou o elenco principal do Flamengo na década de 1940. “Eu era considerado craque. Era juvenil do Flamengo e fui convocado para a seleção que ia disputar a Olimpíada de Londres, em 1948. Éramos 30 atletas”, contou. Como não havia verba para toda a delegação, foi cortado e perdeu a chance de ser campeão olímpico. Dirigiu apenas um filme sobre futebol: Isto É Pelé.

Últimos anos e despedida

Luiz Carlos Barreto tinha 98 anos. Desde 2024, enfrentava problemas de saúde após uma queda durante uma visita ao Ceará, onde nasceu, para receber uma homenagem. Deixa um legado de mais de 150 produções e a certeza de ter inspirado gerações. “Não só nossos filmes, o cinema brasileiro tá cheio de filme bom que não são feitos por nós. Quando muito temos a certeza de que deixamos referências importantes pra quem faz cinema no Brasil, isso é uma grande recompensa.”

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