Jessie Buckley venceu o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Hamnet, adaptação do romance homônimo de Maggie O’Farrell. A tese não é nova: em Ulysses, James Joyce põe na boca de Stephen Dedalus uma leitura biográfica da obra, segundo a qual Shakespeare, que interpretou o Fantasma na primeira montagem da peça, estaria se dirigindo simultaneamente ao Príncipe Hamlet, personagem, e a Hamnet, seu filho.
Enredo e duplos em Hamlet
O enredo, em linhas gerais, é bastante conhecido: após a morte do rei Hamlet, Cláudio casa-se com Gertrudes. O príncipe vê então o fantasma do pai, que lhe revela ter sido assassinado por Cláudio e exige vingança. Hamlet é uma peça de vingança que problematiza o próprio conceito de vingança. Até porque, para executá-la, é preciso crer na justiça da causa. Eis uma diferença entre o rei e o príncipe. O pai é uma personagem tipicamente medieval, para quem justiça e vingança se confundem. O filho é uma figura moderna, para quem a vingança parece injustificável e desarrazoada.
Questionar a identidade do fantasma passa a significar um questionamento da própria identidade. Nesse sentido, reis e príncipes funcionam como duplos dentro da estrutura da peça. Na Dinamarca, temos o rei Hamlet, que ressurge como fantasma para o Príncipe Hamlet. Na Noruega, vizinha e inimiga, temos Fortimbrás, o Velho — morto em combate pelo rei Hamlet — e o príncipe Fortimbrás. Os duplos e o mimetismo serão uma constante na estrutura da peça.
Ciclo de imitações e rivalidade
O ciclo de imitações conduz invariavelmente à rivalidade, ao conflito e à violência. Isso é percebido desde o início: Cláudio e o rei Hamlet eram irmãos e rivais. Pela necessidade de distinção entre eles, Hamlet, com o retrato de ambos em mãos, apela para que a mãe os diferencie. Ao tentar convencer Gertrudes, Hamlet espera convencer a si próprio. O problema é que, para ela, Cláudio e o rei Hamlet são indiferentes.
Nesse mesmo jogo de espelhos, os duplos aparecem como repetição: Laertes deve vingar a morte do pai, Polônio. O jovem Fortimbrás deve vingar a morte do Velho Fortimbrás. No monólogo recitado pelo ator, a pedido de Hamlet, a história narrada é justamente a de Pirro, que deseja vingar o pai, Aquiles, matando Príamo. E, evidentemente, há a missão confiada ao próprio príncipe Hamlet: vingar a morte do rei.
Hamlet e a busca pelo impulso
Para cumprir sua missão, Hamlet precisa despertar em si um impulso, ingressando no ciclo de mimetismo e rivalidade. Tenta fazê-lo por meio do monólogo do ator, mas fracassa. Depois, recorre à mãe, sem sucesso. Em Laertes, encontra o que lhe falta: Hamlet faz dele seu rival e mimetiza deliberadamente seu comportamento ao lançar-se à cova durante o enterro de Ofélia, maior vítima desse processo. Hamlet finge-se de louco e Ofélia o imita. No entanto, a loucura fingida dele torna-se nela realidade, conduzindo-a à morte.
Cronologicamente situada no meio do corpus shakespeariano, Hamlet condensa as experiências anteriores do autor: as relações interpessoais das primeiras comédias, as relações do homem com o Estado, presentes nos dramas históricos, a reflexão sobre a vida e a morte, que coloca em xeque valores estabelecidos.
Múltiplas interpretações ao longo dos séculos
Dessa riqueza decorrem os mais diversos enfoques lançados sobre a peça. Goethe, em Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, apresenta-nos um Hamlet romântico, representação de uma alma pura incapaz de suportar o fardo que lhe é imposto. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, vê em Hamlet a lucidez excessiva — sua marca seria a certeza, não a dúvida. Para Freud, em A Interpretação dos Sonhos, Hamlet é incapaz de matar Cláudio porque este representa, inconscientemente, o que Hamlet desejava fazer: matar o pai e ficar ao lado da mãe.
Essa multiplicidade de interpretações também está presente nas adaptações cinematográficas: os filmes de Olivier, de Kozintsev, de Zeffirelli e de Kenneth Branagh, até O Rei Leão. Nos palcos brasileiros, as montagens mais lembradas de Hamlet são as de Sérgio Cardoso (1948), de Walmor Chagas (1969), de Wagner Moura (2008) e a de Thiago Lacerda (2012). Ao lado de interpretações mais tradicionais, também surgem releituras contemporâneas, como Prazer, Hamlet (2022), em que Rodrigo Simas protagonizou um monólogo no papel de um ator que se prepara para viver o príncipe nos palcos.
Montagem atual com Gabriel Leone
Atualmente, está em cartaz no Copan o espetáculo Hamlet, com Gabriel Leone no papel principal. A oscilação entre sanidade e loucura, que poderia causar confusão no espectador, é resolvida pela interpretação magistral de Gabriel Leone, capaz de transitar pelas múltiplas facetas do príncipe, que passa a habitar o ator, demonstrando que não existe fronteira entre aquilo que um homem quer ser e aquilo que ele é.
Não creio que seja preciso defender a genialidade e a imortalidade da peça. Hamlet era atual em 1601, assim como o é em 2026, e continuaria sendo atual ainda que retrocedesse à Grécia Antiga. É natural que se indague como era a vida do autor antes de Hamlet. Sabemos, porém, que o mundo tornou-se muito melhor depois de Hamlet. O resto é silêncio.



