A cantora Ariana Grande decidiu fazer uma pausa na carreira e evitar aparições públicas após o fim de sua turnê, motivada principalmente pelos comentários frequentes sobre sua aparência. Segundo seu agente, a decisão visa dar um tempo da "exposição constante e interminável". A notícia, divulgada por uma revista, reacende o debate sobre o impacto do body shaming e da exaltação da magreza nas redes sociais.
O que motivou a pausa?
Nos últimos meses, Ariana tem chamado atenção nas redes sociais por sua magreza extrema, algo que ficou ainda mais evidente no clipe de sua nova música, "Petal". No vídeo, a personagem enfrenta críticas sobre a aparência e a carreira, espelhando a situação real da artista. Parte das críticas vem de admiradores preocupados com sua saúde, mas outra parcela se enquadra no que especialistas definem como body shaming.
O body shaming se refere a atitudes, comportamentos e comentários que ridicularizam ou criticam de modo pejorativo e preconceituoso a aparência física de alguém. A psicóloga Christina Marcondes Morgan, docente da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e vice-coordenadora do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares (Proata), alerta que enxurradas de comentários como os que Ariana recebeu são muito prejudiciais à saúde mental e podem desencadear transtornos alimentares.
"A mega exposição nas redes sociais com comentários sobre a aparência pode ser avassaladora para alguém que esteja sensível ao tema e que já tenha uma autoavaliação prejudicada, extremamente baseada no peso e forma do corpo", comenta Morgan.
Body shaming e saúde mental
A principal consequência do body shaming é o sentimento de vergonha em relação à própria aparência. Mesmo que alguns comentários possam parecer positivos para quem os faz, geralmente não são vistos assim por quem os recebe. Rogéria Taragano, psicóloga clínica especializada em transtornos alimentares e supervisora de Psicologia no Ambulatório de Anorexia Nervosa do Ambulim, no Instituto de Psiquiatria da USP, explica que essas afirmações têm efeito bastante negativo, podendo agravar sintomas de transtornos alimentares.
"O corpo alheio não deve ser assunto, não deve ser uma preocupação alta. Se houver de fato uma preocupação genuína com alguém, ela deve se referir à saúde da pessoa como um todo, ao bem-estar, e deve ser compartilhada preferencialmente no privado, em alguns casos somente quando for solicitada", analisa Taragano.
Morgan reforça que as pessoas nunca devem comentar de maneira descuidada sobre a aparência do outro, especialmente em temas sensíveis. Preocupações com a saúde não se expressam por comentários, mas sim por "uma conversa cuidadosa, partindo de alguém que tenha intimidade para falar sobre o assunto".
Exaltação da magreza nas redes sociais
Outro ponto de alerta é a exaltação da magreza, muito presente nas redes sociais. Não há apenas um movimento de crítica a certos corpos, mas também uma busca muitas vezes inatingível por um modelo exposto constantemente na internet. "Há indícios de que o excesso de tempo nas redes sociais contribua para a superexposição a essas imagens, com a ideia de que seguindo aquela ou outra influencer, a magreza está ao alcance de todos. O controle do peso é associado a sucesso, determinação, autocontrole", comenta Morgan.
Nesse processo, muitos acabam desenvolvendo relações problemáticas com a comida e com o próprio corpo. Morgan destaca que entre 1985 e 2019 houve um aumento de casos de anorexia nervosa entre meninas jovens de 10 a 14 anos, e um dos principais fatores pode ser o surgimento das redes sociais. "Temos um agravamento dos quadros de transtornos alimentares com a valorização dessa magreza extrema, que nada mais é do que anorexia nervosa. É um transtorno mental grave, que pode resultar até em morte", analisa Taragano.
Sinais de alerta para transtornos alimentares
Embora a perda de peso significativa seja um indício, a aparência não é o único sinal. Comportamentos como mudança dos hábitos alimentares (comer às escondidas ou com rituais), preocupação excessiva com corpo e comida, excesso de atividade física de forma compulsiva, isolamento social e uso constante de roupas largas podem indicar que algo não vai bem.
"É um quadro de origem multifatorial. Há fatores biológicos, familiares, traços de personalidade, aspectos sociais que, conjugados, vão levar ao desenvolvimento do transtorno", detalha Taragano. Por isso, o acompanhamento multidisciplinar com psiquiatras, psicólogos e nutricionistas é essencial.
Para amigos e familiares, as especialistas recomendam se colocar disponíveis para ouvir e tentar entender a situação. "Pessoas com transtorno alimentar, em geral, não se percebem doentes, têm baixa crítica em relação à gravidade do quadro e normalmente isso dificulta a procura de ajuda", conclui Morgan.



