Ex-PM que largou tudo para ser ator viverá Gilberto Gil em musical
Ex-PM que largou tudo para ser ator viverá Gilberto Gil

Em 2 de julho de 2018, no dia em que completou mais um ano de vida, o mineiro Gui Ventura tomou uma decisão que mudaria o rumo da própria história: pediu exoneração da Polícia Militar. Sem estabilidade e um plano definido, deixou a carreira para apostar na arte. Oito anos depois, em abril de 2026, ele foi escolhido entre 800 candidatos para interpretar Gilberto Gil no musical biográfico Gil – Andar com Fé, escrito por Newton Moreno e dirigido por Miguel Falabella, com estreia prevista para agosto, em São Paulo. A escolha para viver um dos maiores artistas brasileiros marcou o ponto mais alto de uma trajetória construída entre tentativas e recomeços. “Eu não me via ali. Eu precisava trabalhar o meu potencial”, afirmou.

Infância e primeiros passos na arte

Gui Ventura nasceu e cresceu no bairro São Benedito, na periferia de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em casa, a arte sempre esteve presente na vida dele e dos dois irmãos, mesmo em meio a dificuldades financeiras. O pai, que trabalha na manutenção de transporte coletivo, tinha o hábito de ouvir discos de vinil com atenção, enquanto a mãe, faxineira e costureira, criava roupas e objetos artesanais no dia a dia. A música surgiu cedo, de forma natural. Ainda criança, admirando o envolvimento do irmão com a arte, aprendeu a tocar instrumentos de forma autodidata e fez as primeiras apresentações na escola pública onde estudava.

Da PM à decisão de seguir a arte

No início da adolescência, começou a trabalhar para ajudar na renda da família. Entre os primeiros empregos, enfrentou uma rotina pesada, com madrugadas na Central de Abastecimento (Ceasa) e aulas à noite. Mais tarde, trabalhou em telemarketing, até ingressar na Polícia Militar, em que permaneceu por seis anos. Mesmo durante o período na corporação, a arte nunca deixou de fazer parte da vida de Gui. Ele participava de bandas, se apresentava à noite e buscava espaço na cena autoral. Com o tempo, porém, o conflito interno se intensificou. O desconforto evoluiu para um quadro de depressão. Ele contou que passou os últimos anos tentando conciliar o trabalho com atividades artísticas, até perceber que não conseguiria manter as duas trajetórias. A saída veio como uma ruptura definitiva. “Eu não tinha vocação nenhuma para estar ali. Eu não me via durante 30 anos numa corporação. Precisava dar tempo para aquilo que eu era”, relembrou.

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Reconstrução como multiartista

A decisão marcou o início de uma reconstrução. Sem a segurança financeira da carreira anterior, Gui precisou reinventar a própria forma de trabalhar. Passou a atuar como músico, produtor cultural e, mais tarde, ator. “Hoje eu digo que sou multiartista, porque houve 'multi necessidades'”. Ele criou projetos musicais coletivos voltados a artistas negros em Belo Horizonte, circulou por festivais e começou a estruturar a carreira na arte. A consolidação na atuação veio de forma gradual, com cursos e trabalhos em publicidade e no audiovisual, até que passou a se reconhecer também como ator. Gui fez participações em cinema e novelas, como Dona de Mim, exibida pela TV Globo.

Incentivo à cultura

Em entrevista ao g1, Gui Ventura contou que, durante seu processo como artista, as políticas públicas de incentivo à cultura tiveram papel decisivo. Segundo ele, muitos dos projetos e formações só foram possíveis por meio de editais. “A política pública, para mim, foi fundamental. Eu nunca teria condição, por exemplo, de fazer cursos caros de atuação. Fiz porque consegui bolsas”, afirmou. Além da formação, os editais permitiram que ele produzisse discos, videoclipes e circulasse com apresentações. “Esse apoio cria condições para que a gente exista como artista”, completou.

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Escolha para viver Gil

A oportunidade de interpretar Gilberto Gil surgiu após uma série de testes e negativas em outros projetos. Ele contou que quase não se inscreveu para a seleção. No processo, a afinidade com o universo musical do artista e a experiência como instrumentista pesaram a favor. Durante o teste, Gui chamou a atenção da equipe pela semelhança vocal e pela familiaridade com o violão característico de Gil, principalmente ao tocar Expresso 222. Diretor do espetáculo, Miguel Falabella destacou a presença de Gui desde os primeiros momentos da seleção: “Os americanos têm um termo para pessoas que têm uma qualidade especial que se chama ‘star quality’, qualidade de estrela. São pessoas que chamam os seus olhos, que prendem a sua atenção. Ele, obviamente, a princípio nos chamou atenção pela aparência, pela semelhança com Gil, e depois pela sua excelência em tocar violão, em cantar. Ele fez um sotaque baiano no teste, eu até achei que ele era baiano. Se conseguiu me enganar, falei: ‘Ele é realmente bom’. Depois soube que era mineiro e achei que realmente ele sobressaiu no teste”, disse Miguel.

Encontro com Gilberto Gil

Após ser aprovado, Gui encontrou Gilberto Gil pessoalmente, momento que descreveu como um dos mais marcantes da carreira. Durante o encontro, que aconteceu no Teatro Fernanda Montenegro, do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, o multiartista recebeu conselhos que agora carrega como guia no processo de construção do personagem. Gui levou o violão, se apresentou e dedicou ao artista a canção Orixá da Palavra, composição própria que reúne elementos da trajetória de Gilberto Gil. “O Gil, pra mim, é um grande Preto Velho. Ele tem sabedoria, sabe lidar com a vida, com o luto. É um artista negro que nunca se diminuiu. O Gil me convida a expandir. E durante o encontro, lembro que errei um trecho da música e pedi desculpas pelo meu 'tropeço'. Ele, com toda generosidade do mundo, disse que 'só não tropeça quem não anda'. Nossa. Nunca mais vou me esquecer disso. É algo que vou levar pra vida", contou. Em outro momento da conversa, Gil reforçou a importância da autenticidade. “Gil disse para eu ser eu mesmo. Falei: ‘Mestre, vou dar o meu melhor’. Ele falou: ‘Não. Tira o melhor. Faça o que você puder’. Foi emocionante”, relembrou.

O musical e o desafio de interpretar Gil

No musical, Gui dá vida ao artista em diferentes fases, em uma narrativa que mistura memória, tempo e transformação. O desafio, segundo ele, é representar Gil sem cair em imitações. “Estou revendo entrevistas e vários materiais relacionados ao Gil. Busco energia e o ritmo para o corpo de forma natural”, explicou. Mais do que um papel, para o ator, o personagem simboliza um ponto de chegada depois de anos conciliando trabalhos, enfrentando incertezas e recomeços. “Teve muita negativa, muita dúvida. Mas, em algum momento, as coisas se encontraram”.

O espetáculo

O musical Gil – Andar com Fé, sobre a vida e a obra de Gilberto Gil, estreia no dia 20 de agosto de 2026, no Teatro Santander, no Complexo JK Iguatemi, em São Paulo. O espetáculo faz parte das comemorações de dez anos do teatro, com ingressos já disponíveis para a temporada. Dirigida por Miguel Falabella, a montagem é a primeira biografia musical dedicada ao artista. O espetáculo reúne canções, episódios marcantes e diferentes fases da trajetória de Gil como compositor, intérprete e pensador da música brasileira. Com texto de Newton Moreno, o musical não segue uma ordem cronológica tradicional. A narrativa é inspirada na concepção iorubá de tempo, em que passado, presente e futuro se entrelaçam. Assim, momentos da infância, o período de exílio e a vivência em diferentes cidades aparecem de forma simultânea no palco. As músicas de Gilberto Gil conduzem a história e ajudam a apresentar ritmos que marcaram a música brasileira, como samba, baião e afoxé, além de influências da guitarra elétrica e de tradições ancestrais. A trama também inclui personagens importantes da trajetória do artista, como Caetano Veloso, Flora Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga e Sandra Gadelha.

Serviço

Gil - Andar com Fé

  • Data: 20 de agosto a 11 de outubro
  • Horários: quinta e sexta às 20h / sábado às 16h e 20h / domingo às 15h e 19h
  • Local: Teatro Santander (Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Complexo JK Iguatemi — São Paulo, SP)
  • Ingressos: disponíveis online

Observação: Todas as sessões possuem audiodescrição e libras.