Kit Brasil volta ao radar com divergência entre Fed e Copom
Kit Brasil volta ao radar com divergência entre Fed e Copom

O chamado “Kit Brasil” voltou ao radar do mercado financeiro em meio às mudanças recentes no cenário global e nas decisões de política monetária. O termo, modelo da Wagner Investimentos, descreve o comportamento conjunto de três ativos-chave da economia brasileira: o Ibovespa, o câmbio dólar/real e os juros de longo prazo.

Deterioração dos componentes do Kit Brasil

Embora a percepção sobre o Kit Brasil não tenha mudado estruturalmente após a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, houve deterioração relevante em seus componentes, afirmou José Faria Jr., da Wagner Investimentos, em comentário ao InfoMoney. Um dos principais fatores foi a inclinação da curva de juros, movimento que tende a pressionar negativamente os ativos locais, especialmente a Bolsa.

“Temos hoje FOMC com viés de alta de juros e Copom com viés de baixa de juros, fato que prejudica o câmbio e inclina os juros, e, por isso, tende a prejudicar a bolsa. O kit Brasil, em nosso entendimento, basicamente é composto pelo índice Ibovespa, paridade dólar/real e juro longo, ao menos de 5 anos”, explica.

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Descompasso entre Brasil e Estados Unidos

Esse enfraquecimento ocorre, em grande parte, por causa do descompasso entre Brasil e Estados Unidos. Enquanto o Federal Reserve (Fed) mantém um viés mais duro, com possibilidade de alta de juros, o Banco Central brasileiro segue em trajetória de afrouxamento monetário. A divergência desfavorece o real, pressiona os juros de longo prazo e reduz o apetite por risco no mercado acionário.

Na análise, Faria Jr. também cita a guerra entre Irã e EUA como pivô da reversão de longo prazo dos juros, alta do índice dólar (DXY) e queda das commodities. Com isso, juros mais altos e quedas das commodities diminuem o apetite por Brasil, com queda das ações da Bolsa. Nessa esteira, o dólar (ante o real) caiu.

Inconsistências entre classes de ativos

Como destacou análise recente do Itaú BBA, investidores têm destacado inconsistências entre classes de ativos: as taxas de juros locais sugerem uma perspectiva significativamente mais adversa do que as ações e o câmbio. Com taxas reais acima de 8% e visibilidade limitada da política econômica, essas divergências tornaram-se mais acentuadas. Enquanto isso, os mercados parecem segmentados: as taxas de juros (mais influenciadas por fatores locais) refletem maior pessimismo, enquanto o câmbio e as ações incorporam cenários menos severos.

“Nossa estrutura de análise Bull-Bear sugere que a renda fixa precifica apenas cerca de 20% de probabilidade para um cenário de alta (bull), contra cerca de 35% nas ações e 55% no câmbio – indicando um pessimismo substancial já embutido nos ativos brasileiros”, avalia Faria Jr.

Impacto das commodities e cenário político

No caso da bolsa brasileira, o desempenho tem sido fortemente influenciado pelo comportamento das commodities, mostra Faria Jr. Historicamente, períodos de alta nesses produtos impulsionam o Ibovespa. No entanto, a recente perda de fôlego das commodities reduziu o suporte para o mercado acionário doméstico.

No plano doméstico, o ambiente político também entra no radar. A proximidade das eleições tende a aumentar a volatilidade, especialmente à medida que propostas fiscais e sociais ganham destaque. “O melhor gatilho seria a mudança do pêndulo político. Basta observar o que aconteceu com os juros e câmbio na Colômbia. Ou, o que aconteceu com os ativos brasileiros após o [Michel] Temer assumir a presidência. Estamos muito perto das eleições e este passa a ser o principal gatilho”, afirma Faria Jr.

Perspectivas para juros, câmbio e indicadores

O câmbio também refletiria essa dinâmica, segundo o consultor da Wagner Investimentos. A valorização global do dólar, medida pelo índice DXY, tem sido um dos principais vetores de pressão sobre o real. Além disso, o movimento dos juros está no centro das atenções. A alta nas taxas de longo prazo reduz o valor presente das empresas e dificulta a sustentação de altas consistentes na bolsa.

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Alguns dados econômicos são destacados como relevantes. O relatório de folha de pagamentos dos EUA (payroll) será apresentado na quinta-feira (2). O CPI, que mede a inflação por lá, será divulgado em 14 de julho. A expectativa do Fed de Cleveland é que a alta seja de apenas 0,02%. “Esse fato, confirmado, pode começar a reduzir a alta de juros pelo Fed”, diz Faria Jr. A expectativa da consultoria é que a elevação das taxas pelo Fed poderá acontecer apenas em setembro ou na reunião de outubro, com projeções de 47% para alta em setembro (contra 38% pela manutenção) segundo a ferramenta FedWatch do CME Group em 29 de junho.

Segundo a análise, a volatilidade passará a subir conforme se aproximam as eleições, em especial com divulgação de promessas de campanha. “Do ponto de vista do modelo da Wagner Investimentos, DI futuro, Ibovespa e dólar/real tendem a andar em tendências congruentes, de alta da bolsa e queda dos juros e do dólar. Como os juros já reverteram, a bolsa e o dólar estão próximos de região de reversão, assim como o DXY e o CRB, atenção redobrada”, conclui.